sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Poeminha da vida-mosca

A liberdade sempre próxima
e mesmo assim sempre distante:
a mosca ignora que a janela esteja aberta
e insiste em debater-se furiosamente contra o vidro;
sonha com o jardim que entrevê
e com a possibilidade de novos horizontes,
mas permanece presa, acorrentada
à superfície plana e translúcida.

Caminha em círculos,
agoniada, sufocada,
– sendo que a saída encontra-se
a poucos centímetros de distância;
bastaria apenas uma mudança de itinerário
ou de perspectiva.

Olho para ela e penso:
por que é tão estúpida? Até asas ela tem!
Voa, mosca... voa, mosca....
Mas não: ela está como que imantada ao quadrado de vidro
onde sequer se nutre:
queima ao calor do sol,
gela ao frio da noite.
Talvez pense estar ao menos segura
– mal sabe que uma aranha já se aproxima.
E a janela aberta... sempre aberta...

Em sua natureza-mosca,
esquece possuir asas de anjo
e liberdade de deuses.

A janela, mesmo aberta,
é seu limite.

Intransponível.


Alberto Heller

2 comentários:

  1. Desde minha tenra infância essa observação meditativa me encantava, seduzia e despertava mesmo meu infantil instinto predador. Ainda hoje, em meus 75, fico às vezes absorto, a mente estagnada, diante dessa dialėtica tão prenhe de significado. Belo poema, Heller.

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    1. Querido Paulo, o tempo passa mas os questionamentos continuam: a existência será sempre um mistério. Que a observação meditativa nunca nos abandone. Abração e boas festas!

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