sábado, 25 de novembro de 2017

Do preconceito descabido em relação à nobre arte da Pirataria

A beleza em se estudar documentos antigos é que ficamos sabendo de fatos incríveis praticamente esquecidos nos livros de história. Deparei-me recentemente com o julgamento do inglês Henry Morgan (1635-1688), ocorrido em Londres no ano 1679 de Nosso Senhor Jesus Cristo; ele fora acusado de pirataria: segundo seus detratores, teria sido responsável por saquear mais de duzentos navios, além de ter matado, torturado, roubado e cometido sabe-se lá quantos outros crimes. Perante o Rei Charles II e sua corte, Henry Morgan assim se pronunciou em sua célebre defesa:

Sou um homem de bem, temente a Deus e ao meu Rei; de profissão, sou marinheiro mercante. Acaso tenho culpa se, durante certas negociações comerciais, precisei defender-me, fazendo uso até mesmo da espada? Não se tratou de pirataria, mas de corajosa defesa da honra – muitas vezes até da honra de Vossa Majestade, vítima de línguas ferinas e mentes degradadas. Dizem-me corsário; mas deve um homem permitir ser ultrajado quanto tudo que fez foi colocar em uso suas habilidades e a força que lhe foi presenteada pelo Senhor nosso Deus? Se Ele me deu esse talento, em pecado estaria ao não fazer dele uso. E bom uso, ouso acrescentar, pois que ao assim proceder impus respeito perante nossa língua e nossos costumes. Embaixador fui, abrindo novos campos de trabalho, criando novas opções de mercado e angariando fundos para nobres causas (fundos que só ainda não repassei à Coroa porque estava longe, trabalhando exaustivamente). Veem? Meu pecado não passa de excesso de trabalho e de zelo. Se torturei e matei, foi por uma boa causa; e se tomei, foi porque disponível estava. Querem chamar a isso de pilhagem, mas são calúnias: apenas agi com firmeza e coragem. Tenho visão empresarial, senhores; o mundo pertence aos corações arrojados e sem medo – valores que, tenho certeza, Vossa Majestade compartilha. Deve um pai de família ser punido quando tudo que fez foi prover para os seus? A história não é escrita por mãos fracas, a glória não se obtém sem certos riscos: é preciso ousar, cavalheiros. Dividamos a fortuna e a fama, proponho eu, em nome do reino e de nossas famílias.”

Extremamente comovido com essas palavras, o Rei Charles II imediatamente inocentou Morgan, e não apenas isso: outorgou-lhe o título de ‘Sir’ e lhe confiou uma armada de vinte navios para que pudesse continuar com suas nobres atividades, agora sob os auspício da coroa. Quanto aos vis acusadores, estes foram sentenciados à masmorra e nunca mais se ouviu falar deles.

Sir Henry Morgan continuou singrando os sete mares e saqueando – perdão: negociando com firmeza e coragem – até o dia de sua morte, que ocorreu por razões naturais e no conforto de sua ilha (sim, comprou uma ilha próxima à atual Jamaica), cercado de luxo e de belas mulheres. Viva a pirataria! (perdão: viva o senso comercial aliado ao espírito empreendedor).

Fiquem tranquilos, isso tudo aconteceu há mais de trezentos anos; hoje ninguém mais assim procede.


Alberto Heller

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A definição da música

Certa vez, durante uma entrevista, perguntaram ao compositor italiano Luciano Berio o que ele entendia por música: “Sinto-me tentado a responder que a música é a arte dos sons”, disse ele, “mas correria o risco de perguntarem o que é arte e então seria pior. Receio que me seja impossível responder; é uma pergunta difícil e, afinal de contas, meio indiscreta.”

Indiscreta e indelicada. Me faz lembrar das vezes em que me pediram para explicar uma piada, ou dos repórteres que perguntam a pessoas em situações trágicas o que elas estão sentindo, ou mesmo pérolas como “foi bom pra você”? Certas perguntas não se fazem.

Talvez Berio devesse ter usado uma das Respostas para eventuais Perguntas que John Cage tinha sempre na manga para ocasiões similares: “Trata-se de uma ótima pergunta, não irei estragá-la com uma resposta.”

Perguntas aparentemente inocentes que escondem grande violência (ou, no mínimo, ignorância). O que é música? Sei lá o que é música. Mas você é músico, deveria saber! Não sei: vivo do mistério.

Se insistirem, chamarei Agostinho em meu auxílio, apenas trocando tempo por música: “O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se quiser explicá-lo a quem me fizer a pergunta, já não sei.” Ou Wittgenstein: a solução do enigma é que não há enigma.

Ou há?


Alberto Heller