quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A cruz, o peso e a neurose

Creio que o ano era 1991 ou 1992; estava viajando de ônibus de Curitiba a Blumenau para dar um curso. Torcendo, como sempre, para que ninguém se sentasse ao meu lado – e como sempre alguém apareceu e se sentou. Era um homem de meia idade, aparentemente estrangeiro, provavelmente hindu. Algum tempo depois começamos a conversar: realmente era da Índia, estava passando uns anos no Brasil e falava bastante bem o nosso idioma. Papo vai papo vem, começamos a discutir (claro) religião. Não recordo como chegamos ao tema, mas achei muito rica sua concepção a respeito da simbologia da cruz: para ele, a linha horizontal representava a vontade dos homens, enquanto a vertical representava a vontade de Deus; quando essas vontades não estão alinhadas, forma-se a cruz: um peso a ser carregado, fonte de sofrimentos e martírios. Mas quando as duas se alinham, a cruz desaparece: tornamo-nos leves, tudo passa a fluir.

Anos mais tarde ouvi de um amigo que passara muitos anos num mosteiro na França a frase que seu superior lhe disse quando em dado momento teve dúvidas quanto a prosseguir ou não na carreira eclesiástica: “A tensão é o não-acordo com a realidade”.

A realidade: a do mundo, a do corpo, a da mente, da cultura, da sociedade... Tantas realidades – e com isso, tantos conflitos. O caráter neurótico do mundo moderno (ou não tão moderno assim). Basicamente, o neurótico está em conflito consigo mesmo, conflito entre o que é e o que quer ser (ou acha que quer ou é levado a crer que quer); quem ele é e quem ele “deveria” se tornar. Para nossa cruz pessoal nem precisamos atribuir vontades a Deus ou ao universo: nossa própria vontade está em constante desalinho, em constante luta. Culpa, negação, defesa, medo. Coisas que pesam. Vamos nos tornando pesados, a vida vai se transformando num calvário: estamos em desacordo. Acorde.


Alberto Heller

Um comentário:

  1. Talvez este acordar seja a maturidade para discernir entre as cruzes, aquelas passíveis de mudanças e aquelas pesadas como pedras que num aprendizado constante , podem ser empilhadas ao caminhar e um dia, conforme F.Pessoa, podem virar um castelo. É como numa peça de Bach: Fantasia e/ou Fuga.

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