segunda-feira, 31 de julho de 2017

Sonhos



Uma mágica!!!


            s
              o      s                  s     s
                 h    o               o    e
                    l    ç           b    r
                      e   n       m   o
                        o  e    o    l
                          c  l  p  f



Avestruzes dançam can-can

Leões pulam do trapézio

Perigosos domadores enjaulados tentam engolir um tigre

A tartaruga, sobre pernas de pau, já nem se vê, tão alta está

Girafas plantam bananeira, enquanto

Os elefantes vendem pipoca



A menina porém adormece

E sonha com o dia em que será uma grande advogada



A realidade

Ah, a realidade...



Alberto Heller

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Entre nudes e orações

O que é que mais se compartilha nos grupos de WhatsApp e nas mensagens virtuais privadas? Os assim chamados nudes (categoria na qual podemos incluir não apenas corpos nus, mas desde as piadas picantes até a pornografia explícita) e as orações (incluindo bênçãos, santinhos, rezas, correntes e mensagens de autoajuda). Ou seja: sexo e religião. Combinação curiosa. Pergunto-me se esses dois universos mantêm entre si algum tipo especial de parentesco ou similitude – algo os une, certamente, e nem irei recorrer à psicanálise para tentar compreender o fenômeno (por mais tentador que seja). O fato é que os campeões de compartilhamentos são fé (ou falta de fé) e sacanagem (ou falta de sacanagem).

Aliás, essa palavra (sacanagem) me fez lembrar do período em que estudei Letras na UFPR, séculos atrás; certo dia, o professor de latim (Geraldo Matos, uma sumidade em línguas – do esperanto ao tupi-guarani –, autor de dicionários e gramáticas) anunciou uma prova surpresa, o que levou um aluno indignado (não eu, dessa vez) a dizer que aquilo era sacanagem. O professor Matos explicou-lhe então que o significado dessa palavra era, originalmente, o ato de um homem masturbar outro homem. Meu colega concordou que isso era realmente uma sacanagem, mas não tanto quanto aplicar uma prova não anunciada. Em outra ocasião, esse mesmo professor (uma lenda) respondeu a uma aluna de nossa sala que lhe desejou boa noite: “Nunca diga boa noite a um homem, a não ser que esteja disposta a colaborar para que isso se torne realidade”. Por alguma razão, a turma foi ficando cada vez mais calada em suas aulas.

Mas voltando à sacanagem (que não é propriamente sacanagem, embora também possa ocasionalmente sê-lo) e sua misteriosa ligação com o mundo divino. O Tantra, por exemplo, explorou a fundo (não maliciem) essa questão, ao passo que as neurociências vêm tentando mostrar que um momento místico de iluminação durante uma meditação profunda e um orgasmo talvez provenham das mesmas fórmulas químicas e psicofísicas em nosso organismo. Na dúvida, melhor comer uma barra de chocolate (mais prático, menos perigoso e livre de expectativas).

Seja como for, quando as pessoas recebem mensagens com orações ou nudes, elas não se conformam em simplesmente olhar: não, é preciso passar adiante, é preciso compartilhar. Essa é a palavra chave! Quando eu compartilho uma dádiva dessas com você, mostro que lhe tenho confiança. Mais: que temos intimidade – tanta, que podemos até viver juntos o que temos de mais pessoal: sexualidade e espiritualidade. Agora somos cúmplices, não estamos mais sós. Você e eu fomos salvos – não pela oração nem pela tentação, mas por enviar e responder. Em meio ao oceano de dúvidas e medos, nos agarramos a essas mensagens-boias; em meio à multidão de desconhecidos, nos encontramos (mesmo que virtualmente) e assim suportamos mais um pouco essa loucura toda. Comungamos, celebramos. Obrigado por estar aí. Sim, você a quem escrevo agora, com que compartilho minhas ideias esdrúxulas. É mais ou menos como a função fática na linguagem (descrita por Roman Jakobson), cuja finalidade é prolongar uma comunicação ou verificar se um canal funciona (“Alô, está me ouvindo?”). Não precisa nem responder, apenas mandar uma carinha feliz, um polegar para cima, um rsrs ou kkkk – até uma carinha braba serve. Algo que me diga que não estou sozinho. Nunca estivemos tão sós e tão carentes (não é à toa que tantas religiões voltaram a proliferar no mundo). Orem por mim. Mas se preferirem mandar nudes, também vale.


Alberto Heller

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Auto-entrevista

A vantagem de uma auto-entrevista é não precisar responder perguntas inúteis, idiotas ou constrangedoras (embora as respostas possam ser inúteis, idiotas e constrangedoras). Vamos a elas:

1. Você sempre quis ser músico? Não, eu queria ser escritor. A música veio mais tarde e aos poucos. Quando finalmente me decidi por ela, o que mais me motivou foi a ideia de viajar pelo mundo e tomar café da manhã em hotéis.
2. As pessoas acham que você é uma pessoa séria; você é? Já fui sério (acho que dos 15 aos 35) mas parei com essa mania. Ainda tenho uma máscara de sério para ocasiões solenes, mas depois de algumas horas sinto que o rosto começa a doer e fico louco para falar bobagens.
3. Qual a tua religião afinal? Sei lá! Minha mãe é judia, meu pai era ateu (“graças a Deus”, brincava ele); fui batizado como católico, frequentei a umbanda e o espiritismo mas me identifico principalmente com o budismo (especialmente o Zen). Junte tudo isso e dá.... algo estranho.
4. Você sempre foi um apaixonado por literatura, música, filosofia e psicologia; com qual mais se identifica? Depende da época; mas se fico tempo demais numa só, começo a me sentir agoniado. Gosto é de passear entre elas.
5. Das tuas composições, qual é a preferida? Sou um otimista, sempre acho que a melhor obra será a próxima. Mas das que fiz até agora, acho que o Concerto “Aurora consurgens”. 
6. Você acredita em horóscopo? Nós geminianos somos muito céticos. Ainda mais com ascendente em Peixes. Os dois são duplos, logo sou quádruplo – quando bebo fico óctuplo. Isso explica muita coisa.
7. Você costuma procrastinar? Sempre que possível, mas dou a isso outro nome: período gestacional.
8. Você sempre fugiu? Eu era o mais novo de três irmãos e na escola sofria bullying; não era fuga, era “retirada estratégica”. Anos mais tarde virei faixa preta em karatê, mas meu mestre sempre disse: ao ver confusão, caia fora. Ou seja: antes era por covardia, hoje por sabedoria.
9. Você se sente argentino ou brasileiro? Na Argentina dizem que sou brasileiro, no Brasil dizem que sou argentino, quando vivi na Alemanha isso não fazia diferença porque era simplesmente sul-americano. Pelo menos nisso sou judeu: eternamente estrangeiro. 
10. Politicamente você é bastante ambíguo e costuma ser criticado tanto pela esquerda quanto pela direita; afinal, você é de direita ou de esquerda? Acredito mais em bom senso que em partidos; atender às necessidades básicas de uma população, por exemplo, não tem a ver com direita nem com esquerda, é dever e pronto. Sou a favor de cargos técnicos. Não sou neutro nem “de centro”: para algumas coisas tendo à esquerda (saúde, educação, transporte, saneamento), para outras tendo à direita. Serão incompatíveis essas posturas? Talvez não. Mas é por isso que sou artista e não político.
11. Uma cor. Cinza
12. Uma música. Adagio para cordas, de Samuel Barber.
13. Um livro. O espelho no espelho, de Michael Ende.
14. Uma banda. Katzenjammer e Rammstein. Era pra ser só uma. Falei duas, e daí, qual o problema? Vai invocar por causa disso? Você sabe que odeio normas, sou anarquista. Anarquista, impaciente e teimoso. Vamos à próxima:
15. Um filme. Asas do desejo, de Wim Wenders.
16. Um animal. Hipopótamo.
17. Um último comentário. Já era hora!


Alberto Heller

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Curriculum mortis

O curriculum mortis é tudo aquilo que nos levou ao que tão orgulhosamente escrevemos no curriculum vitae – mas que preferimos manter em silêncio ou, se possível, no esquecimento. Bobagem – afinal, foi justamente isso que nos tornou o que somos, que nos trouxe aonde estamos. Aquelas mil cagadas que fizemos, as situações constrangedoras em que nos metemos, os fracassos, as derrotas, os micos, as enrascadas, os relacionamentos amorosos com gente maluca que depois ficamos pensando se foi insanidade temporária, auto-sabotagem ou aposta perdida. Pois é, tudo isso somos... nós. Fatos e fotos que não postamos no Facebook nem no Instagram, que não vão no Linkedin nem no Lattes, que nos recusamos a incluir em nossas biografias e que evitamos contar até mesmo à nossa família e aos nossos amigos (omissões, não mentiras!).

Essa parte (enorme) de nossa história que inclui desde os “onde eu estava com a cabeça” até os “como pude”, passando ainda pelos “puta-merda, não acredito que fiz isso” até os infalíveis “porra, de novo não!” (sim, de novo – pra ver se finalmente aprendemos). Conjunto que teve, porém, sua serventia e seu mérito, não é mesmo? Tudo serviu ao Grande Propósito; insondável, como o Divino, mas ainda assim um propósito.

Não se trata de azar nem de destino, não é karma nem coincidência, você não está sendo testado como Jó; simplesmente a vida é assim mesmo, aceite. Ninguém falou que seria um mar de rosas. Por isso relaxe, sorria, aproveite mais, compre livros sem culpa (ou sapatos ou viagens) e vá ao cinema – com pipoca GG e refrigerante de litro (segunda-feira essas calorias serão o curriculum mortis a ser queimado na academia). É a vida...

Alberto Heller