terça-feira, 20 de junho de 2017

A música clássica em crise?

A fruição da música clássica exigiu por muito tempo que o público se dirigisse a locais específicos (geralmente teatros) nos quais pudesse saborear a música de maneira concentrada e introspectiva. Hoje, com as facilidades da vida virtual e mais propensos à dispersão, ficamos um tanto mal acostumados, dá até preguiça de “ter que ir até lá”: a música que venha a nós – aos nossos carros, aos nossos celulares, às plataformas que nos forem convenientes. E que venha de graça e com rapidez. Consumimos velozmente, um novo produto se segue rapidamente ao anterior. Nada de frear o tempo: é preciso acelerar, sempre.

A música clássica vai na contramão disso: ela exige a disciplina do tempo e do espírito – disciplina à qual poucos hoje se submetem: inadvertidamente nos encontramos em permanente estado de flutuação, sempre à deriva. No excesso de oferta, tornamo-nos indiferentes, apáticos.

Alguns apontam para certo “cansaço” e “saturação” em relação ao universo da música clássica; esse cansaço não é da música, mas das instituições, do mercado, do espírito burocrático (que acomete tantos profissionais), dos modos pelos quais a acessamos. A música em si continua muito bem, obrigado (e aproveita para avisar que está com saudades).

Aproximar-se dela com propriedade tem se tornado, mais que um desafio, um verdadeiro luxo (quase uma perversão): é preciso dar-se ao luxo de permitir-se ter tempo para (re)encontrar dentro do tempo o não–tempo da arte.

Enfim: a crise não é da música. O problema é muito maior, muito mais grave. Tão grave que sua solução exige delicadeza.  


Alberto Heller