quarta-feira, 24 de maio de 2017

Música em conjunto

Fazer música em conjunto é uma experiência riquíssima – e sutilmente complexa (não é fácil harmonizar organicamente o pessoal e o coletivo). Mesmo que haja um maestro regendo – no caso de uma orquestra, por exemplo –, isso não é garantia de que todos os músicos estarão tocando com a mesma sensação de tempo; ao longo da execução de uma obra musical ocorrem milhares de ajustes finos, a percepção do intérprete passeia em ziguezague entre o que ele está tocando, o que está ouvindo e o que o regente está marcando. Inevitavelmente, há momentos nos quais ocorrem pequenos desencontros: o cello atrasa um pouco, o violino adianta um pouco, o maestro tenta manter e realinhar. Nesse momento, que faço eu ao piano? Tento impor meu próprio ritmo? Faço uma decisão rápida em relação a quem seguir?

Um pouco de tudo, nada de tudo: flutua-se. Respira-se. Sente-se. E aos poucos voltamos a fluir juntos. Algo parecido com o que o espadachim Zen chama de "atenção difusa": num duelo, se o esgrimista se concentra num único ponto, corre o risco de perder a intuição do todo e ser assim atingido pelo adversário. O excesso de concentração é tão prejudicial quanto sua falta (Leminski: distraídos venceremos).

Se durante uma apresentação um dos músicos erra ou tem problemas, os outros se adequam e, juntos, voltam à música. Não faria sentido interromper a apresentação para anunciar em voz alta "estamos parando a música por causa daquele cretino ali na clarineta, a culpa é dele, não nossa, nós estávamos fazendo corretamente nossa parte". Não se trata "dele" nem de "nós", também não se trata de atribuir méritos e deméritos: trata-se de música, de arte. E a arte, sabemos, exige desapego.

(Quem sabe essa prática não possa ser levada também à esfera  política?)



Alberto Heller

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Instituto de Carinhologia

Agora você não precisa mais apelar para amor, romance e sexo para conseguir aquilo que, tantas vezes, é tudo de que precisa: carinho. Em poucas semanas estaremos inaugurando em sua cidade o novo, o primeiro e único Instituto de Carinhologia®. Aqui você pode receber sessões de carinho de uma, duas ou mesmo três horas ininterruptas! Gosta de carinho nas costas? Temos. Costas e pescoço? Temos. Braços e pernas? Temos. Orelhas, pés, corpo inteiro? Temos também. E você decide a intensidade: forte, média, suave, super-suave, quase imperceptível. Gosta de ficar toda(o) arrepiada(o) ou prefere o toque firme? Podemos alternar os dois – afinal, temos tudo para seu conforto e bem estar emocional, psíquico e espiritual, e contamos para isso com os/as melhores profissionais.

Gosta de cafuné? Sem problema: imagine duas horas de cafuné enquanto ouve músicas de seu agrado e inala óleos essenciais com os aromas mais delicados. Ou prefere colo? Ah, um bom colo de vez em quando... quem é que não precisa? Equivale a seis meses de terapia! Cochilou? Sem problema: teremos à sua espera, quando despertar, chá, café e bolos (açúcar combina com carinho, não é?). Ficou tão relaxada(o) que nem consegue dirigir de volta pra casa? Damos carona!

Mas a melhor parte: ganhar carinho sem que haja cobranças nem expectativas de algo a mais – já imaginou o alívio? Não precisar de sexo, não precisar de relacionamentos nem de outras  complicações... Que coisa boa!!! Oferecemos aquilo que outros serviços não dão: psicanálise e prostituição, massoterapia e reiki, acupuntura e shiatsu – nada substitui um bom carinho! Presenteie-se hoje mesmo com uma sessão. Você merece!

Alberto Heller