quinta-feira, 27 de abril de 2017

O mito do autoconhecimento através da arte

Fórmulas como "conhece-te a ti mesmo" ou "ser ou não ser, eis a questão" continuam a nos assombrar (seja no sentido do desconcertante ou do fantasmático), e apontam para algo que ansiamos, desejamos, fantasiamos: a existência de um eu mais profundo, quiçá mais verdadeiro, real, completo etc. – enfim, um "algo a mais" existencial. Vários projetos psicológicos e psicanalíticos (fora, claro, filosóficos e religiosos) tentaram e tentam alcançar esse algo que tão teimosamente nos escapa, que tão ardilosamente nos nega sua substância e que daria resposta ao torturante "quem sou eu?". A dificuldade (impossibilidade?) de se chegar a uma resposta verbal/falada/escrita faz com que muitos duvidem da palavra e busquem novos caminhos no que estaria além ou aquém da palavra. Aparentemente, um caminho privilegiado para isso seria o da arte: na expressão artística revelar-se-ia nosso ser, nosso inconsciente (pessoal, coletivo), nosso corpo, bem como o corpo do mundo e da cultura; através da arte entraríamos em contato com essa profundidade e mistério da existência humana, com nossa essência (espírito?, alma?), o que me leva à pergunta: não estaremos esperando demais da arte?
            Quantas vezes não ouvi declarações do tipo "estou fazendo arte para me conhecer melhor". Fosse esse realmente o caso, artistas profissionais deveriam ter um autoconhecimento excepcional (e não é isso que se observa, asseguro-lhes). Sem dúvida, o contato íntimo e contínuo com a arte traz inúmeros benefícios – mas será que o conhecimento "sobre" nós é um deles? Em meu caso, tenho a impressão quase do contrário: quanto mais crio, menos sei de mim. As obras que crio não preenchem nenhum vazio, antes o aumentam. Digo "crio" e nem sei até que ponto sou eu quem cria. No Gênesis lemos "disse Deus, 'Haja luz', e fez-se a luz". No fiat lux há ação/verbo/fala, mas o sujeito que a profere encontra-se implicado num outro tipo de relação que a causal; ele não diz "vou fazer a luz", não se mostra como origem da criação. É quase como se houvesse ação mas não houvesse sujeito. Quando estou compondo uma música, faço opções a partir da minha história, do meu gosto, da minha memória, mas ao longo do processo instaura-se uma espécie de passividade criadora, que é aquele momento em que as opções começam a vir da própria obra e quando se tem a sensação de que é ela quem cria (e me cria).
Algo se cria em nós – mas como falar em criação se isso que em mim se apropria surge quase como uma passividade? É difícil pensar em criação sem cair em armadilhas semânticas e lógicas discursivas nas quais quem cria, cria alguma coisa – e a partir de onde se infere a existência de um sujeito que produz algo (sujeito, verbo, predicado, objeto, causalidade, passado, futuro, linha temporal etc.). Somos fascinados pelo mistério da origem – talvez por isso veneremos os grandes criadores (seja na arte ou em qualquer outro campo do conhecimento). Mas essas personalidades não contêm as obras que criaram, nem a soma dessas obras bastaria para permitir conhecê-los. Quando dizemos que um artista se expressa, não queremos dizer com isso que a obra de arte se reduz à sua expressão; junto àquilo que ele quer expressar há todo um mundo que ali também se expressa e do qual ele não tem consciência ou, mesmo que tenha, nunca chega a ter controle. Não devemos confundir expressão com auto-expressão, pois o que se expressa na arte supera em muito os limites do individual: o artista e "sua" criação são atravessados pelo mundo, pela história, pela cultura, pela energia, pelo espaço, pelo tempo. Mesmo a técnica mais refinada só consegue, na melhor das hipóteses, facilitar o fenômeno da expressão; ela (a técnica) nunca confere ao artista o poder e o domínio sobre a obra. Na verdade, o artista não lida propriamente com "arte" (esse é um imaginário por demais vago e pouco prático); lida, antes, com o vazio, e neste campo não há segurança alguma: a cada processo/obra instaura-se um novo vazio, uma nova angústia. O fazer artístico e suas criações não diminuem esse vazio (nem a angústia). Mas é uma belíssima maneira de ali vir a habitar. 



Alberto Heller

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O terceiro olho

Seu despertar foi lento:
abriu primeiro um olho,
depois o outro,
e somente trinta anos mais tarde
o terceiro,
fato que, pela falta de costume,
provocou-lhe fortes dores de cabeça.

Ao procurar um oftalmologista,
este imediatamente recomendou
a amputação da anomalia excedente,
alertando: “risco de cegueira
por excesso de visão”.

O olho retirado,
mandou empalhar.

Hoje o usa como chaveiro.



Alberto Heller