domingo, 26 de março de 2017

A má educação

O mal-educado é aquele que não é "bem"-educado, ou seja: algo muito feio, reprovável. O sujeito mal-educado, diz-se, deveria se envergonhar – afinal, não se trata do ignorante, daquele que simplesmente não sabe algo, mas daquele que, em plena consciência de seus atos, opta por desrespeitar ou infringir regras, afrontando assim o sistema e seus semelhantes (semelhantes "pero no mucho", já que estes olham de modo reprovador para o delinquente que ousou ser diferente e que, ao fazê-lo, os chamou indiretamente de idiotas). O que já não acontece com a pessoa educada, de fino trato e de boas maneiras: o sujeito integrado, obediente, respeitador, bom moço, que nunca dá bolas fora, nunca conta piadas sujas fora de hora, só bebe socialmente e dobra as cuecas antes de colocá-las ordenadamente na gaveta. Viva a boa educação!

Ao longo da história, igreja e exército forneceram os moldes para o desenvolvimento da educação disciplinada e disciplinadora; o corpo do soldado se transformou em algo que se fabrica: um corpo que se manipula, se modela, se treina, se torna hábil e produtivo. Um corpo que obedece, submisso (ou, como diz Foucault, um corpo dócil). Sobre ele é possível exercer coerção sem folga: o tempo é dividido e subdividido, e é preciso aproveitá-lo ao máximo; ele deve render, deve ser útil (o tempo todo). No tempo e no espaço, cada indivíduo aprende o seu lugar: a disciplina de entrar na fila, de manter a distância correta dos outros, de não levantar a voz, de obedecer a autoridade superior. No trabalho como no espaço escolar há vigilância, hierarquia, exames constantes (estude muito, sempre, eternamente!) e todo um jogo de sanções normalizadoras, recompensas e penalidades (premiar os bons, punir os maus – entre estes também os indolentes, preguiçosos, diferentes, contestadores, rebeldes etc.).

Se a segunda metade do século XX experimentou o gostinho da abertura e da libertação em relação a essas questões, o século XXI está nos surpreendendo com um inesperado retorno ao politicamente correto e aos bons costumes. O aparente excesso de liberdade individual conduziu não à plenitude do sujeito, mas à indiferença ("não estou nem aí"), e da indiferença se chegou à sujeição geral a tiranias descentralizadas e não-localizáveis – e por isso mesmo muito mais devastadoras (quanto mais fácil não é combater tiranos visíveis!).

O olhar apático de quem vai a um gigantesco supermercado: o exercício da liberdade se tornou um escolher entre infinitos produtos. Boas compras (e comportem-se!).  


Alberto Heller

segunda-feira, 6 de março de 2017

Espaço

Brincou certa vez o saudoso Millôr Fernandes que, para aumentar a sensação de espaço em casas e apartamentos apertados, basta aprender a andar nas paredes e no teto. Não é má ideia. Claro, será preciso antes esvaziar as paredes e o teto dos mil objetos e penduricalhos que vamos ali depositando ao longo da vida. Adoramos entulhar de coisas os lugares que habitamos – até o momento em que não mais conseguimos habitar.

A questão não tem necessariamente a ver com tamanho: tem gente que compra um palácio e continua se sentindo apertado. O lugar do habitável não está na extensão (extensio), mas no espaço (spatium): no vazio a partir de onde criamos e somos criados. Já dizia Einstein: não estamos n'O espaço: somos espacialmente estendidos. Assim sendo, não haverá problema algum em habitarmos o ar e, consequentemente, aprendermos a andar pelas paredes e pelo teto.

Gosto muito de uma passagem de Heidegger na qual ele afirma que habitar é um demorar-se junto às coisas. Ou seja, uma relação temporal: ali onde me demoro, ali sou, ali moro, ali habito. Nesse tempo, ocorre uma transfiguração mágica: já não há mais uma porção de espaço, mas um lugar – MEU lugar. Uma conquista amorosa e paciente (o tempo que em si mesmo espera, não expecta). Amor.

O amor liberta.


Alberto Heller