segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Você toca algo de Shakespeare?

Eu devia ter uns dezessete anos, na época tocava num piano-bar em Curitiba (eram os anos 1980, os piano-bares estavam então na moda). Certa noite, um jovem casal (deviam ter a mesma idade que eu) discutia numa mesa vizinha; o rapaz então se levantou e, decidido, veio falar comigo: "Você toca alguma música de Shakespeare?", perguntou. Achei que fosse algum tipo de pegadinha e resolvi entrar na brincadeira: "Claro! Qual delas?" – "Qualquer uma!" respondeu, visivelmente satisfeito consigo mesmo. Comecei então a improvisar qualquer coisa, enquanto ele, triunfante, voltava-se à sua companheira amuada: "Está vendo? Não falei que era compositor?"

Continuei a tocar, torcendo apenas para não ser solicitado a repetir aquela invencionice maluca. Bem, certamente não era Shakespeare – mas quem garante que ele não compôs algo? Logo Shakespeare, um cara tão brilhante...

Como dizia John Cage, o passado precisa ser reinventado.


Alberto Heller

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Espelho, espelho meu

Espelhos são coisas fascinantes: fábricas infinitas e incansáveis de imagens. Digo 'coisas' para não dizer objetos – espelhos são por demais vivos para pertencerem ao pretenso grupo dos inanimados. E ao mesmo tempo são frios, gelados. Paradoxo desconcertante. Difícil passar por um sem parar para olhá-lo. Olhar-nos. [Olhamos o espelho ou a nós mesmos quando estamos frente a um?]

Muitos o tomam como verdade ("Você já se olhou no espelho hoje?"). Sim, já olhei – e não gostei. Na verdade (a "verdade", de novo), tendo a desconfiar dos espelhos; a mesma desconfiança que tenho das balanças: estarão bem regulados? Afinal, tem aqueles espelhos engraçados que deformam a imagem (nos parques de diversão de antigamente sempre tinha, era o máximo!): nos deixam ora altos ora baixos, ora obesos ora raquíticos. Ou seja, desconfio não exatamente dos espelhos, mas da mão humana que os construiu. Por isso, dou sempre um desconto (a meu favor, claro). A realidade precisa ser ajustada, nunca é exata. Ou: a verdade do real deve ser devidamente apropriada. À minha imagem e semelhança (que não é exatamente a do espelho).

A criança que se vê pelas primeiras vezes frente a um espelho: identificação com uma imagem, experiência de ver-se como sendo outro (sou outro!), curiosidade em relação a esse outro. Vejo, logo sou – por isso preciso estar constantemente consultando reflexos para saber quem-como estou sendo. A angústia da visão, o olhar que nunca para de interrogar.

Também nas fotos: esse não sou eu; eu não sou assim; desse ângulo fiquei estranho. Por isso cert@s modelos insistem em serem fotografad@s em perspectivas bem precisas: pelo lado direito, ligeiramente de cima, 45 graus, enquanto a cabeça se inclina numa direção também cuidadosamente estudada. Ali (e apenas ali) revela-se a verdade de seu ser. A verdade bela. As outras –  feias – estão inevitavelmente erradas.

No mundo pós-internet passamos a desconfiar de tudo: das notícias, dos jornais, da televisão. Descobrimos que não há neutralidade nem objetividade: as pessoas compartilham notícias e nunca sabemos se aquilo é informação ou desinformação. Na dúvida, acreditamos apenas no que queremos (e temos orgulho disso: a mim não enganam!). Se hoje a bruxa de Branca de Neve perguntasse ao seu espelho mágico quem é a mais bela do reino e não gostasse da resposta, jogaria fora o espelho e compraria outro. Simples assim.

Alberto Heller