domingo, 15 de janeiro de 2017

Um ikebana pode mudar o mundo

Sim: um arranjo floral (ikebana) pode, por mais singelo que seja, mudar o mundo. Mas ele é tão pequeno, e o mundo tão grande! Sim, ele é pequeno. Mas ao fazer um ikebana (ou mesmo ao contemplá-lo) meu ser se transforma: meu rosto se desanuvia, minha energia se harmoniza, passo a vibrar de maneira mais sutil. Mudo de frequência. Saio então à rua e não grito com o motorista que corta meu caminho sem dar sinal; em vez de alterar-me e xingá-lo, penso simplesmente que uma boa pessoa teve um momento de distração, talvez estivesse atrasado ou numa emergência. Chego ao trabalho e dou uma aula melhor – e as pessoas que tiveram aula comigo nesse dia sairão melhores que quando entraram, também elas levarão adiante algo dessa boa energia. Trato as pessoas com mais delicadeza, olho-as mais demoradamente e ao apertar suas mãos, aperto realmente suas mãos. Vejo beleza, espalho beleza.

Isso muda o mundo? Sim, muda. Pois o mundo é isso, isso que está ao meu alcance. Eis a profundidade do estético (aisthesis = conhecimento sensível), o verdadeiro sentido da cultura: cultivar, cuidar, zelar.

Fazer um ikebana não colocará você nas notícias da TV nem do jornal – se comparado às grandes tragédias do mundo, o ikebana é quase nada. Mas é nesse quase nada que reside nossa máxima humanidade.  


Alberto Heller

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

(Des)Conhece-te a ti mesmo

Certo dia, anos atrás, recebi o telefonema de um maestro alemão convidando-me a fazer alguns concertos com sua orquestra de Hamburgo – ele queria especificamente o Concerto nº1 para piano e orquestra de Schostakovich. Perguntou se eu o tinha em meu repertório, menti descaradamente dizendo que sim (imaginem vocês se eu perderia essa oportunidade!); acertamos os detalhes e nos despedimos. Só aí fui ver a cara do concerto. Para minha decepção, absolutamente não me identifiquei, mas aí já não tinha jeito: comecei a estudá-lo. De início o corpo negava aquilo tudo e deixava isso bem claro presenteando-me com um monte de dores. Mas aos poucos fui me habituando, as dores passaram e comecei até a gostar da obra. Para quando vieram os ensaios com a orquestra eu já estava abertamente curtindo a música e, para minha surpresa, acabou sendo uma das obras que melhor toquei na vida, com enorme sucesso nas três apresentações que se seguiram.

Dizia John Cage: não fosse o acaso, ficaríamos nos repetindo eternamente, escravos do nosso gosto e da nossa memória. Eu jamais teria escolhido esse concerto de livre e espontânea vontade. No romance "Presto con Fuoco", de Roberto Cotroneo, dois pianistas famosos conversam sobre a interpretação das Baladas de Chopin: "Imagino que sua preferida seja a quarta"; "Realmente é! Como o sabe?"; "É a que pior toca".

Distância necessária, amor, desejo, gosto, escolhas: equilíbrio delicado. Dar a chance, ter a chance, arriscar, experimentar. Nunca terminamos de nos conhecer. E depois que a gente acha que se conhece, vem a nova tarefa: desconstruir essa chatice que nos tornamos.


Alberto Heller