segunda-feira, 28 de novembro de 2016

"Até chorei..." – desconfie!

Era um retiro de idosos numa pequena cidade alemã: uma soprano e eu apresentamos lá um recital de canto e piano com obras de compositores sul-americanos. Pareciam estar gostando muito. Até que, em dado momento, uma senhora em cadeira de rodas começa a chorar em meio a uma canção. Ótimo, pensei, estamos interpretando bem. Mas trocou a música e a velhinha continuava chorando. Puxa, emocionou mesmo! Mais duas músicas e o choro não passava – pelo jeito a coisa tinha pego fundo. Uma enfermeira apareceu e empurrou a cadeira até outra sala. Findo o concerto, já me dirigindo à saída, vejo a senhorinha num canto ainda chorando e murmurando algo; apiedado, aproximo-me para confortá-la, quando finalmente ouço o que ela resmunga repetidamente em meio às lágrimas: "Não gostei, achei horrível, não era isso que eu queria ouvir, façam eles irem embora!".

Pois é, as coisas nem sempre são como pensamos que são. Os enganos aparentam: alguns riem sérios, outros vibram quietos; alguns entristecem em sorrisos, outros falam por silêncios. E há ainda as falsidades, claro. E as sublimações. E os desajeitos. E os mistérios. Há de tudo, muito.

Por isso, cautela: não julgue apressadamente (mas também não jogue fora a primeira intuição). E se após um concerto alguém te disser que "até chorou de emoção", desconfie: pode ter sido a emoção por ter acabado.

Alberto Heller 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O tédio no olhar

O tédio no olhar: quando o olhar não está permanentemente ocupado, isto é: buscando, procurando, vasculhando, projetando, verificando, trabalhando. O tédio no olhar é quando nada acontece e tudo acontece. É o olhar quando repousa numa obra de arte e ali, artisticamente, se faz – surge. Quando se demora – que é quando nasce o tempo (autopoiesis, autocriação; Santo Agostinho: "Não houve tempo nenhum em que não fizésseis alguma coisa, pois fazíeis o próprio tempo"; Confissões, XI-14).

Um tédio onde o olhar espera ao invés de expectar (duas formas bem distintas de viver o tempo). Assim esperando, de repente desabrocha, floresce (no tempo certo, não antes). O tempo de uma gestação.

Mas toda fecundação requer espaço, e o espaço surge na medida em que a vida não está toda preenchida por afazeres, por notícias que não nos interessam, mensagens por responder, chatices, fofocas e entretenimentos (os "lazeres") infinitos que adiam nossa presença. Ausente, o olhar não vê, apenas opera. Máquina.

O olhar-tédio desmonta o olhar-agenda. E assim, esquecido-distraído, subitamente . Admirado, compraz-se com a visão.

Encontra por não buscar, cria por não fazer. Maravilha-se.


Alberto Heller

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Pianos

Pianos
muitos deles – um bando inteiro:
negros, maciços,
caudas longas e insinuantes,
rastejam na escuridão e
espreitam desde seus esconderijos – selvagens
esgueirando-se invisíveis atrás de árvores e arbustos.


Finalmente caçados,
são levados e trancafiados em teatros,
onde ficam à mercê dos olhares curiosos do público.
Domadores de fraque os enfrentam, temerosos,
arriscando as mãos em suas mandíbulas brancas.

Findo o espetáculo, todos se vão.

Fica a fera, só,
contorcendo-se em mudos soluços de banzo.


Alberto Heller