sábado, 29 de outubro de 2016

Carta-resposta: sobre minhas ausências

Querido amigo, outro dia você me censurou dizendo que eu deveria me engajar mais nas causas relativas ao nosso campo profissional, ser mais participativo, estar nas reuniões e nas decisões importantes, unir-me aos diversos grupos e ajudar nas tantas lutas por tantas ideias. Você frisou o quão importante é tudo isso – de nos unirmos, de sermos coesos, de trabalharmos juntos pelo progresso e por melhorias. Entendo suas colocações: são justas e corretas. E mesmo assim, continuarei ausente. Explico-me.

Não se trata de preguiça nem de egoísmo, tem antes a ver com minha natureza: tendo à anarquia, ao caos, à pulsão de morte; talvez eu seja um pouco o coringa do baralho, talvez um tanto dionisíaco – embora, nos dias de hoje, também Dionísio tenha contas a pagar (afinal, ele precisa de lugar para morar, precisa de luz, água, telefone, internet...) e por isso trabalha e tenta adaptar-se, tanto quanto possível, a essa sociedade insana e estranha. Não significa que a aprecie nem que concorde com suas regras; atua nela apenas na medida do estritamente necessário.

A verdade é que não tolero grupos, sejam eles religiosos, políticos, sociais, profissionais ou de qualquer outro tipo. Ponha-me numa reunião de grupo e em questão de minutos estarei fazendo desenhos, escrevendo poemas e pensando num jeito de sumir dali. Não sou antissocial, mas prefiro viver o social em doses homeopáticas. Não tenho orgulho disso, acredite! Mas também não tenho vergonha (já tive – mas a idade e vários anos de terapia me fizeram vir a conhecer-me e aceitar-me do jeito que sou). Muitas vezes tentei domesticar meus impulsos e conviver com grupos; mas a essência acaba aparecendo e transbordando: não me adapto, torno-me incômodo-incomodado.

Não me entenda mal quando digo que desprezo os grupos: eu desprezo os grupos, não as pessoas que fazem parte deles (pelas pessoas, sinto carinho). Desprezo o elemento formador, estrutural, esse movimento-Lei que passa a reger o modo de orientação de cada um dentro dessas máquinas chamadas "grupos". Não me agrada isso, não me submeto a isso. O que não faz de mim um perverso nem um sociopata, não saio por aí dinamitando grupos nem pregando a destruição dos mesmos. Apenas caio fora. Porque essas estruturas me sufocam, me prendem, me causam claustrofobia. Convide-me para fazer uma atividade com seu grupo, irei com prazer; mas se me convidar a fazer parte dele, fugirei.

Também não me encaixo no clichê do "artista solitário e recluso"; sendo um artista, lido diariamente com criação, mas não sou criativo por escolha, desejo, talento ou dom, e sim por certa inabilidade, certa incapacidade em me ater a regras e preceitos. Não consigo sequer cozinhar seguindo uma receita à risca – mal começo, já estou mudando e inventando... Não o faço por vaidade ou por orgulho, trata-se de dificuldade mesmo. Essa "deficiência" não é um juízo de valor: não é um mais, não é um menos, apenas uma outra forma de operar.

Talvez você tenda ao proselitismo por acreditar tanto no seu caminho. Eu não: se me perguntassem, sugeriria veementemente que fossem por qualquer caminho menos pelo meu. Até porque o meu não é um caminho, é um descaminho. Eu não quero um mundo como eu – e também não quero um mundo como você. Que bom que existimos nós dois, e que existem outros. E que bom que não há unanimidade, nunca. Que possamos sempre nos respeitar e coexistir na diferença, abrindo mão de nos colonizar uns aos outros.

Mesmo longe, estou por perto. Mesmo ausente, estou aqui.

Alberto Heller


sábado, 22 de outubro de 2016

O Alienista (roteiro adaptado para filme de ficção científica)

Nada acontece por acaso.

Recém chegado dos Montes Urais e instalado na pequena e pacata Itaguaí, o Dr. Simão Van Helsing (que devido ao seu passado obscuro preferiu mudar o nome ao entrar no Brasil para Simão Bacamarte) se deparou com uma situação insólita: alienígenas haviam invadido o lugar. Com a ajuda do boticário da vila, Crispim Soares, e do vigário, Padre Lopes, formaram uma força-tarefa que logo foi derrotada pelos ferozes extraterrestres. Telefonaram pedindo ajuda a especialistas, mas sem sucesso (ligaram para os Homens de Preto, para Jaspion e até mesmo para Sigourney Weaver, todos estavam ocupados). Finalmente, encontraram o profissional certo: um caçador de aliens (um alienista), o ex-caçador de androides aposentado Dick Deckard.

Com admirável perícia (e, de acordo com algumas testemunhas femininas, com inigualável charme e elegância), Dick foi capturando uma a uma as vis criaturas e trancafiando-as no antigo prostíbulo da cidade, a Casa Vermelha. A essa altura, porém, os alienígenas já haviam mudado de tática: abandonaram seus corpos e assumiram a vida dos habitantes da cidade. Novo problema: como distinguir os humanos dos não-humanos? Deckard passou a submetê-los a longos interrogatórios: aqueles que falhassem nas respostas do questionário (especialmente preparado para esse fim) eram levados imediatamente à Casa Vermelha. Foi o caso de praticamente todos (invariavelmente falhavam ao não lembrar, por exemplo, de nenhuma das músicas do Mamonas Assassinas).

Em menos de uma semana a população foi detida e a cidade ficou deserta. Até o dia fatídico no qual Dick sucumbiu aos encantos de uma bela e sedutora plutoniana de cinco seios e quatro bocas: fugiram no meio da noite, abandonando a cidade aos cuidados do pobre Dr. Simão Bacamarte. Este não aguentou a pressão: preferiu soltar todos os alienígenas e trancar a si mesmo na Casa Vermelha. Por sorte havia lá uma televisão, um videocassete e uma boa seleção de filmes adultos para passar o tempo. Foi sua salvação: poucos meses depois a cidade foi invadida por uma horda de zumbis – era o início de uma terrível e sangrenta batalha entre estes e os aliens. Mas isso só veremos no segundo filme da série – aguardem!!!


Alberto Heller

sábado, 8 de outubro de 2016

Cinco contículos inúteis

O grande mestre da música passeava entre os edifícios do campus. Da sala da dança, uma bailarina cochichou para a outra: "Olha só aquele gordo, que coisa horrorosa!"

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Havia jurado nunca mais se apresentar naquela maldita cidade. Passados vários anos, o convidaram e ele resolveu dar uma nova chance. Obviamente, se ferrou. De novo.

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Todos os dias pensava em suicídio. Sabia que jamais o faria, mas pensava a respeito do mesmo modo. Gostava especialmente de fantasiar seu enterro, a comoção geral... Também ele se comovia com a cena, e apiedado, chorava.

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Era uma mulher casta – por isso, ele a pediu em casamento. Anos depois, foi assaltado pela dúvida: e se ela só fora casta com ele?  Por via das dúvidas, traiu-a – aquela falsa!

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Ele não se via como uma pessoa orgulhosa. Na verdade, era extremamente modesto. E disso tinha profundo orgulho!



Alberto Heller