quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Conversas no velório

Último dia do mês de agosto de 2016. No dia em que o país se divide em relação ao impeachment da presidente, falece logo no início da manhã a avó de minha esposa. Pegamos a estrada e, quatro horas depois, estamos no velório. Desconsolado, o avô acaricia o rosto da companheira com quem ficara casado mais de setenta anos. Em seus olhos, a dor de quem perdeu seu mundo. Voltará a vida a fazer sentido?

Cumprimento as pessoas. Num sofá, duas senhoras de idade avançada; apresento-me. "Somos amigas dela, temos um grupo que sempre se reúne para o lanche"; "Ela ganhou de nós, foi descansar antes; mas sou a próxima, tenho 86 anos"; "Não, primeiro vou eu, já falei", "E a partir de agora, nosso lanche – como vai ficar?". Não respondem, continuam sorrindo. Não estão tristes nem alegres: já se conformaram que a vida é assim, que em algum momento o lanche precisa continuar em outro lugar, em outra existência.

Chega o momento de fechar o caixão. Difícil. Depois, ajudo a carregá-lo pelo longo cemitério. Dia ensolarado, bonito, os ciprestes em paciente silêncio, os mármores acostumados à passagem do tempo. Descobrirei mais tarde que nas ruas do Brasil as pessoas estão se digladiando e se odiando; ali, nada disso importa, nada disso penetra os altos muros de pedra. Fotos dos que já se foram me observam, cheios de vida. Ontem já foi hoje, dizem (hoje será ontem, penso). Você viveu? Aproveitou seu tempo?

O tempo. O tempo o tempo o tempo o tempo.

Alberto Heller


sábado, 13 de agosto de 2016

Quer a felicidade? Pergunte-me como

A falta não é algo para ser preenchido (ao contrário do que permanentemente nos querem fazer crer). Já dizia Lao Tse 500 AC: "Trinta raios convergem ao centro da roda: / nesse vazio está a utilidade da carroça. / Escava-se a argila para modelar vasos: / a utilidade dos vasos está no seu nada. / Abrem-se portas e janelas para que haja um quarto: / a utilidade do quarto está no seu nada. / Por isso o que existe serve para ser possuído / e o que não existe, para ser útil" (Tao te king, verso 11). Essa passagem não é um elogio ao utilitarismo, mas a percepção de que o criativo está profundamente ligado ao vazio (vazio que não é ausência, mas pura potência).

Na contramão dessa ideia, milhares de profissionais ao redor do mundo tentam vender seus serviços apelando justamente para a pretensa "falta" que todos vivenciamos. Você está se sentindo angustiado? Incompleto? É porque não preencheu devidamente sua vida e seu vazio existencial; filie-se hoje mesmo ao nosso programa e em apenas dez vídeo-aulas torne-se uma pessoa completamente diferente: feliz, completa, segura, realizada – pronta para conquistar a fama, a riqueza e o poder (se você ainda não é rico, famoso e poderoso, a CULPA é sua: afinal, você pode se tornar o que quiser quando quiser; se ainda não se tornou "o máximo" é porque está preso a padrões de pensamento e de ação que fazem de você "um mínimo"). Tal culpa é também metafísica, pois mesclou-se ao apelo material um apelo espiritual – sim, essa busca incessante é denominada "espiritual"; uma vez "espiritualizado", você terá sucesso material e financeiro (as teologias da prosperidade). Uma eventual saída ou desistência da esteira de produção seria afrontar o próprio Criador, e Ele está contando com você. NÓS estamos contando com você, não nos decepcione.  Mas fique tranquilo, estamos aqui para ajudá-lo. Por apenas trinta dólares mensais. Subscribe.

A vida como projeto/construção/programa: malhe, estude, aprenda, corra, seja/fique lindo(a), economize, compre, viaje, faça acontecer, não pare (sem sacrifícios não há recompensa, e você não quer ser um perdedor, quer?). Agora sua agenda está toda ocupada, você virou uma pessoa comprometida em se tornar alguém melhor, e em função disso sua vida é a de uma pessoa extremamente atarefada. Isso lhe causa crises de ansiedade? Não se preocupe: temos vários cursos ensinando a lidar com ansiedade e depressão (e de brinde, você ainda recebe inteiramente grátis o curso "Orgasmos múltiplos todos os dias até os cem anos de idade").

Raramente usamos a solução mais básica, que seria simplesmente desligar o sistema (shutdown), tirar da tomada; acreditar que não nos falta nada, que somos o que somos – não perfeitos, não completos, não felizes, mas isso que somos. Os vendedores de programas existenciais (que antigamente vendiam enciclopédias, depois viraram operadores de telemarketing e hoje vendem sucesso e realização pessoal) nos dizem então que isso é conformismo derrotista. Não é verdade: isso é liberdade.

Alberto Heller


domingo, 7 de agosto de 2016

No divã, divagando

O psicanalista esperava pela resposta do paciente

O paciente, porém, estava cansado de pensar.
O único que sabia é que havia sonhado com trovões.

“Que diabos estou fazendo aqui?
Não lhe direi mais nada;
em primeiro lugar porque não tenho vontade,
em segundo lugar porque não tenho nada a dizer.
Que estará pensando ele sobre o meu silêncio?
Acho que vou embora...
Mas que saco, por que ele não diz nada?
E afinal, se ele não diz, por que tenho eu que dizer alguma coisa?”

O psicanalista esperava pela resposta

“Não preciso contar tudo; afinal, isto aqui não é um confessionário!
Por outro lado, também nada me impede de falar;
Ele é confiável, é um amigo.
- Não, não é um amigo: é um profissional.
- Não! Não é um profissional, é um sádico!”

O psicanalista esperava

“Onde estou? Quem sou eu?
Por que é que ele não fala?
E por que é que ele nunca responde, só pergunta?
Droga, preciso sair daqui.
Aliás, pensando bem, sempre saio pior que quando entro.
É, não vale a pena.
Por que é que ele espera tanto?
Afinal, quem é esse cara aí na minha frente?”

O psicanalista

O paciente tira do bolso um revólver
e o aponta para o psicanalista.

O psicanalista dorme (estava cansado de pensar).

O paciente espera.

Cansado de esperar, se mata.

(O psicanalista sonha com trovões)



Alberto Heller

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

O amor e a realidade

Ele era um pouco mais velho que eu quando começou a fazer aulas de piano comigo. Estávamos na Alemanha, o ano era 1993. Tinha pressa, queria aprender o mais rápido possível, nem que para isso tivesse que estudar quinze horas por dia. Perguntei o porquê de tanta pressa e ele acabou confessando: no prédio onde vivia, morava também uma cantora de ópera (uma mezzo-soprano de voz maravilhosa que veio a se tornar grande estrela na ópera de Munique), e estava perdidamente apaixonado por ela. Seu plano: aprender a tocar piano, oferecer-se para acompanhá-la ao instrumento e assim ter um pretexto para vê-la com frequência. Guardei para mim a opinião de que seu plano era ridículo e de que certamente haveria meios muito mais fáceis e rápidos de fazer tal aproximação. Enfim, começamos a trabalhar. Meses depois, pasmem: seu plano deu certo!!! Começaram a namorar e em menos de um ano se casaram – fui padrinho do casamento. Durante toda a cerimônia, fiquei lembrando do insólito e improvável caminho percorrido por aquele amor. 

Era mesmo um personagem interessantíssimo, esse meu amigo. Antes de se mudar para a cidade onde viemos a nos conhecer, ele havia passado dez anos num mosteiro na França. Chegou porém um momento, conforme me contou, em que começou a se sentir angustiado e cheio de dúvidas. Decidiu compartilhar sua inquietude com o abade, um ancião de grande sabedoria, que depois de muito meditar lhe disse: La tension c'est la non accord avec la réalité (A tensão é o não acordo com a realidade). Foi o suficiente: abandonou o mosteiro e foi ter com o mundo.

E o mundo lhe sorriu (não logo de cara e não sempre: apanhou um monte também). Mas encarou sua realidade. Como? Não sendo realista.


Alberto Heller