domingo, 31 de julho de 2016

O Ponteiro das Horas

Na antiguidade remota a passagem do tempo era medida pelos astros: o sol, a lua, as estrelas. Depois vieram o relógio de sol, o relógio de água (clepsidra), o relógio de areia e, finalmente, ELE, O Relógio, que se insinuou poderoso nos lugares de destaque nas praças das cidades medievais. Inicialmente, esses relógios só tinham o ponteiro das horas; serão necessários muitos anos até que surja o ponteiro dos minutos e, mais tarde, também o dos segundos. Em 1504 Peter Henlein (1485-1542) inventa, em Nuremberg na Alemanha, o primeiro relógio de pulso – e assim o monstro da praça adentra os lares e os locais de trabalho, passando a nos acompanhar a todos os lugares o tempo todo.

Graças aos relógios chegamos à concepção disso a que chamamos "dia": 24 horas divididas em 1.440 minutos divididos em 86.400 segundos. O dia como uma fatiazinha minúscula da eternidade. Mas será a eternidade um fluir infinito de dias ou o cessar de sua passagem? Como cita Borges em sua História da Eternidade, a propósito dos eleatas: "É impossível que em oitocentos anos de tempo transcorra um prazo de catorze  minutos, porque antes é obrigatório que tenham passado sete, e antes de sete, três minutos e meio, e antes de três e meio, um minuto e três quartos, e assim infinitamente, de maneira que os catorze minutos nunca se cumprem". A eternidade estaria, assim, dentro do próprio tempo e não em sua (ilusória) sucessão (ao invés de quebrarmos o relógio, talvez devêssemos mergulhar nele).

O relógio é especialmente usado em relação à divisão de tarefas, a isso que ficou conhecido como trabalho: ele determina se "aproveitamos" ou não o tempo (afinal, nada mais grave que o tempo "ocioso" e "não produtivo"); preguiça, indolência, acídia: pecados capitais. Capitalismo e Igreja se unem para associar Deus ao trabalho, à ordem, à pontualidade e ao esforço pessoal permanente. O tempo precisa ser "aproveitado", "bem utilizado", deve "render" frutos na vida terrena e na celeste, segundo a segundo (tivéssemos ainda apenas o ponteiro das horas, haveria demasiada margem livre para imprecisões, distrações e descansos inúteis). Ele nos diz quando acordar (6:45), quando começar a trabalhar (8:00), quando ter fome (entre 12:00 e 13:00), quando levar e buscar as crianças aos locais chamados escolas; nos informa que somos lentos demais para determinadas tarefas ("lerdos", "ruins", "incapazes"), ou rápidos demais para outras ("já gozou!?!?!"). Eles nos "organizam", nos qualificam ou desqualificam, nos classificam (regulam, igualam, generalizam, normalizam, modelam, domesticam, disciplinam; impõem um ritmo anônimo a uma sociedade também anônima).

É preciso correr, é preciso ter pressa para ser (algo). Veja-se, por exemplo, os novos programas de concursos culinários, tão em moda na TV: não basta você cozinhar um belíssimo prato: você deve fazê-lo em quarenta e cinco minutos, nem um minuto a mais. Corra, faltam apenas dez segundos!!! Nove, oito, sete, seis, cinco...


Alberto Heller

terça-feira, 26 de julho de 2016

Jesus, Che Guevara e Hitler

Nos encontramos ontem para um café e ouvi esta história deliciosa: ele morou algum tempo na Tailândia e certo dia, passeando pelas ruas de Bangkok, se deparou com as obras de um artista local expostas ao ar livre, entre elas três esculturas: uma de Jesus, outra de Che Guevara e uma terceira de Adolf Hitler. Um tanto chocado com a combinação insólita de escolhas, perguntou ao artista se este sabia que Hitler havia (entre outras atrocidades) exterminado milhares de judeus; o homem desconhecia os fatos, mas perguntou: "Ele não foi um grande general?"

É sensacional quando somos vistos de fora, de uma outra cultura ou mesmo de um outro planeta (os plutonianos, por exemplo, contam piadas divertidíssimas a nosso respeito – embora eles não considerem a Terra, lá chamada de Hgjwrtsurbvnvldos, propriamente um planeta).

Hitler era bom em muitas coisas: oratória, invasões, assassinatos em massa; já em pintura parece que era péssimo. Isso sem mencionar o bigode, ridículo. Aliás, gostaram do quadro que acompanha este texto? É de Salvador Dali, uma pintura de 1958 intitulada "Detalle de luna Paisage con acompañamiento". Foi feita a partir do bigode de Hitler (basta vê-la de lado).  

Cultura é isso, é como cozinhar às segundas-feiras: a gente sempre inventa algo com as sobras e restos do final de semana (e às vezes – para nossa própria surpresa – fica bem melhor!). 


Alberto Heller

domingo, 24 de julho de 2016

O olhar da Medusa

Teve sorte: ao entrar no palco, os refletores o cegaram e o público virou uma massa disforme. Sentou-se ao piano e tentou concentrar-se nas teclas, mas o som ensurdecedor do sangue pulsando nas têmporas tornava a tarefa impossível. Fechou os olhos e respirou fundo. Há quanto tempo estava ali? Segundos? Minutos? A presença daquelas pessoas desregulava completamente seu relógio interno (bem, obviamente desregulava muito mais que apenas seu relógio interno). O impasse foi aumentando ainda mais sua ansiedade – até que decidiu vencê-la no susto: começou repentinamente a tocar. Na verdade, não era exatamente ele quem tocava: algo ou alguém tocava em seu lugar, ele somente observava desde um espaço obscuro, uma espécie de dimensão paralela.

Como um navegante que tenta recuperar o comando de seu navio, tentava achar o caminho de volta ao seu corpo e ao seu agora, mas sem sucesso: tinha virado pedra ante o olhar da Medusa – e cada par de olhos na plateia pertencia a uma das serpentes que substituíam seus cabelos, percebia agora com clareza. Lembrou-se da recomendação dada a Perseu, de nunca encarar a Górgona de frente, somente através de seu reflexo. Buscou na tampa do piano os olhos ameaçadores e lá estavam. Utilizando poderosos acordes, perfurou-os, um a um. Lentamente, conseguiu retornar.

Finda a música, nenhum aplauso: na plateia, apenas estátuas.

Alberto Heller


domingo, 17 de julho de 2016

O alienado

Era um alienado.

Enquanto todos se deixavam levar pela fartura e velocidade infinitas do mundo neo-modernista-pós-contemporâneo hiper-mega-super-plus e suas oito mil novidades e atualizações diárias, ele lia e ouvia clássicos: Cervantes, Dostoiévski, Schubert, Beethoven (alternando-os com outros clássicos tais como Asterix, Tintim, Calvin & Haroldo, Pink Floyd). Por mais que tentassem fazê-lo entender e se interessar pelo mundo real e presente, era óbvio que tinha dificuldades (até hoje não entendia, por exemplo, o funcionamento da bolsa de valores – o dinheiro, diga-se de passagem, era-lhe uma necessidade obtusa cuja principal decorrência era a transformação de vocações em ocupações rentáveis; tudo muito estranho e suspeito). Era, como disse, um alienado.

Enquanto passava ano após ano aprofundando suas leituras e estudos pessoais (conectando saberes nada práticos como música e astronomia, literatura e filosofia, arte e espiritualidade), o mundo acelerava mais e mais; o tempo não pertencia mais às pessoas, mas ao "mercado". Endividadas, venderam-no. Na nova sociedade de supermercado em que tudo é disponível e comprável, ele  se sentia ora deslocado, ora ameaçado; magoava-o ver que nesse "admirável mundo novo" tudo era publicidade, tudo era convertido em imagem e que essas imagens tinham por única finalidade criar desejo, demanda e procura; um universo de consumo contínuo, hiperindividualista, no qual todo marketing prometia felicidade e bem estar mas gerava apenas mais falta e mais desejo. Comprava-se conforto (sempre passível de ser aumentado e melhorado), preenchia-se o tempo "livre" com lazer e entretenimento, compensava-se cotidianos vazios com sonhos de férias luxuosas; saldava-se dívidas apenas para logo depois contrair novas e ainda maiores (a abundância nunca suficiente) – um mundo no qual o sujeito, mais que consumir, acabava sendo consumido.

Sua alienação não o impediu de perceber tudo isso – afinal, estava vivo: dirigia, trabalhava, lia jornais, via um pouco de TV (cada vez menos), participava até de redes sociais (cada vez menos também), mas um tanto à distância. Mais sentia isso tudo que propriamente participava (sentia-o através de ansiedade e angústia generalizados, acompanhados de eventuais dores no peito e estranhas taquicardias – era extremamente sensitivo, o coitado: seu corpo captava como uma antena as vibrações que a humanidade emanava e sofria com elas e por elas; por mais que tentasse se isolar, elas o alcançavam e o faziam agitar-se como se fosse ele o responsável por aquela bagunça toda).

Aos poucos, a grande maioria da população enlouqueceu irremediavelmente, e foi finalmente tragada pela Grande Onda. Não ele: ele agarrou-se com toda força à sua biblioteca, esperando heroicamente a passagem desse não anunciado Apocalipse. Poucos sobreviveram. Feliz ou infelizmente (ponto de vista), ele permaneceu.

Era um alienado.


Alberto Heller

sábado, 9 de julho de 2016

Quando nos vemos (?) nas fotos

A foto não "eterniza" o instante; a foto fala do instante impossível. Em algumas fotos nos vemos mais bonitos do que achamos que somos: são as que escolhemos para nos representar no perfil das redes sociais, por exemplo (tão diferentes daquela maldita imagem na carteira de identidade). Mas na maioria das fotos nos vemos como não gostaríamos de ser (vistos): aqui não saí bem. Passamos a negá-las (negar-nos): esse não sou eu. Não sou assim (tão feio). Ou seja: nas fotos somos/estamos sempre mais feios ou mais bonitos do que somos, nunca "como somos" ("realmente"). 

No fundo, não fazemos a mínima ideia de quem/como somos – e é justamente onde reside o problema: somos corpo-ideia, não corpo-corpo. Sabemos de nós pelo olhar do outro, vemo-nos com olhar de outro. Duvidamos: sou amável? Sou desejável? Sou querível? (neologismo simpático). Quando a resposta parece ser positiva, nos alegramos, do contrário, entristecemos. E para além da alegria e da tristeza, a melancolia de saber que não sabemos. A eterna dúvida sobre quem somos.

Logo no início do romance A Imortalidade, de Milan Kundera, o protagonista observa uma senhora de idade sair de uma piscina e despedir-se de seu instrutor de natação com um aceno jovial que poderia muito bem ser o de uma menininha, e passa a cogitar sobre qual teria sido a primeira vez que ela usara tal gesto, e o quanto nossos gestos são atemporais. "Com certa parte de nosso ser vivemos fora do tempo. Talvez só nos apercebamos da idade em momentos extraordinários, mas na maior parte do tempo vivemos sem idade alguma."

Somos lembrados da passagem do tempo nas fotos e pelas fotos, nessas estranhíssimas imagens que elas nos devolvem. A elas perguntamos: quem sou eu? E nos respondem, esfingianamente: quando és?


Alberto Heller