quarta-feira, 29 de junho de 2016

As cem portas: escolha uma

Conta um conto que certa vez, num lugar muito muito distante, um gênio maligno aprisionou o herói da história numa cela mágica. Disse-lhe o gênio: "Como pode ver, há neste lugar cem portas; em noventa e nove delas encontram-se feras terríveis que o matarão em segundos, mas em uma – e somente em uma – encontra-se o caminho para a liberdade. A escolha é sua". O herói cogita durante dias (alimento havia de sobra, podia dar-se a esse luxo): qual porta escolher? Como proceder? E se fosse tudo mentira e todas conduzissem à liberdade? Ou se, ao contrário, em todas as cem houvesse apenas feras e nenhuma escapatória da morte lancinante? E mesmo se fosse verdade que havia uma saída, a chance de encontrá-la era mínima...

Assim corroído pela dúvida, os dias viraram semanas, meses e anos, sem que se atrevesse a abrir qualquer uma das portas. Até que um dia morreu, acometido de um mal súbito.


Alberto Heller

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Doutor, sofro de niilismo

"Doutor, sofro de niilismo".
"Com que frequência?"
"Com uma frequência cada vez mais frequente".
"E onde isso o incomoda?"
"Bem aqui, ó, entre a escápula e a virilha".
"Vejo que seus conhecimentos de anatomia são um tanto vagos... Os sintomas começaram antes ou depois de ler Nietzsche?"
"Na verdade, começaram depois de ouvir Mahler".
"Quer dizer então que vai de Mahler a pior, hein? HAHAHAHA – desculpe, piada sem graça. Possui antecedentes familiares?"
"Minha avó sempre dizia que meu avô era um nada".
"E era?"
"Não sei, minhas lembranças se esvaziam, sinto um aperto no peito..."
"É comum as pessoas confundirem niilismo com infarto, e quase sempre são apenas gases. Defeca normalmente?"
"Só quando como".
"Frequenta a academia?".
"Não suporto a esteira: corro, corro e não chego a lugar algum, aí o vazio existencial volta a doer".  
"Referia-me ao ambiente acadêmico – é péssimo para os niilismos de toda espécie. Alguma perversão digna de nota?"
"Leio Paulo Coelho".
"Fique tranquilo, isso ficará entre nós, aqui tudo é estritamente confidencial. Falando nisso, como vai sua vida sexual?"
"Campeã em natação: nada durante a semana, nada no final de semana".
"Consultou outros especialistas antes de vir a mim?"
"Dois filósofos (que só pioraram a situação pois me encheram de leituras complicadas), um padre, um monge tibetano e um rabino. Experimentei também massagem tailandesa, florais e Pizza Hut, mas nada ajudou."
"Esqueça tudo isso; na verdade, o niilismo só conhece uma cura: pudim de leite condensado, todos os dias. Mas também recomendo ver filmes deitado na cama (aventura, suspense e comédia – fuja dos dramas e filmes de arte, filmes europeus nem pensar); leia histórias em quadrinhos e coma em bons restaurantes sempre que puder; cachimbo ou charutos, acompanhados de uma boa bebida; ande sempre perfumado; evite aborrecimentos (nada de consultar seu saldo bancário, por exemplo). E um último conselho: chega de pós-românticos; a partir de agora, em lugar de Skriabin, Mahler, Richard Strauss e Busoni, ouça Corelli, Scarlatti e Händel. De Bach talvez os concertos, mas nada de fugas!"
"E se não funcionar?"
"ABBA – discografia completa, incluindo aprender as letras e as coreografias".
"Uau! Sério?!?!?"
"Ninguém disse que seria fácil..."


Alberto Heller

domingo, 12 de junho de 2016

Sorte ou azar?

A vida é uma coisa engraçada: às vezes temos sorte, às vezes temos azar. Mas a coisa é um pouco mais complexa que isso. Você pode ter o azar de ter sorte (como ao vencer um festival de música, ser contratado por uma grande gravadora e depois passar o resto da vida escravo de um mesmo estilo, eternamente preso a um padrão e imagem que sequer o representam e que irão  atormentá-lo e fazê-lo infeliz pelo resto dos seus dias); pode ter a sorte de ter azar (como ao ser reprovado injustamente num concurso público no qual você era de longe o melhor candidato – mas que, graças a isso, livrou-se de ter de conviver com pessoas incompetentes e desonestas, poupando-se assim de úlceras e cânceres); pode ter a sorte de ter sorte (nascer lindo e perfeito, ter uma vida linda e perfeita e morrer de velho durante o sono); e pode, ainda, ter o azar de ter azar (nascer com doenças graves, viver em meio à miséria, ter uma família cruel ou ausente, não conhecer o amor nem a amizade). Merecimento? Acaso? Destino? Karma? Deus malvado, Deus brincalhão, Deus impotente, Deus sádico, Deus inexistente?

Quando eu era criança meu tio contou a seguinte piada (bem, ele disse ser uma piada, mas verão que não tem graça alguma): era uma vez dois irmãos, um que vivia brabo e carrancudo, outro que vivia contente. Certo Natal os pais das crianças resolveram fazer um experimento radical: ao mal humorado deram de presente um brinquedo absurdamente caro e maravilhoso: uma cidade inteira com milhares de peças e encantos; ao outro, deram de presente um cocô. Sim, isso mesmo, um cocô: feio, grande e fedido. Algum tempo depois foram verificar os efeitos da experiência; o mal humorado estava enfurecido: "as luzes do foguete não acendem, os aviões são de hélice e não supersônicos, os soldadinhos têm todos a mesma cara sorridente" e citava outros mil defeitos daquilo que, segundo ele, era uma porcaria. Já o outro estava radiante, felicíssimo. A mãe não se conteve: "mas como você pode estar feliz? Você ganhou um pedaço de bosta!". "Não, eu ganhei um unicórnio!", respondeu o menino; "ele fez cocô e depois saiu voando pela janela. Estou feliz porque agora está livre e não preso aqui neste apartamentico".

MORAL DA HISTÓRIA: Não faço a mínima ideia – ainda estou tentando entender essa bagunça toda. Mas se a vida te der limões, compre uma Coca-Cola.


Alberto Heller

domingo, 5 de junho de 2016

O mestre confeiteiro

Quando no início dos anos 1990 resolvi estudar música na Alemanha, fui sem bolsa de estudos, de maneira que, para me sustentar, trabalhei durante o primeiro ano em diversas atividades até o meu alemão ficar mais ou menos decente e eu começar a dar aulas de piano num conservatório: fui garçom, atendente noturno num hotel, chapeleiro no teatro (adorava, pois podia assistir de graça a toda a programação) e até mesmo ajudante de confeiteiro.

Era uma confeitaria enorme, quase industrial. Nos primeiros dias fiquei horas e mais horas só limpando morangos, saía de lá que nem Chaplin em Tempos Modernos, as mãos repetindo os mesmos movimentos no ar. Depois fui promovido, passei a montar tabuleiros para um doce no qual tudo que eu tinha a fazer era dispor frutas em diagonais: uma fileira de pêssegos, uma de morangos, uma de kiwis, uma de pêssegos, uma de morangos, uma de kiwis etc. etc. etc.

Bom, depois de três dias eu não aguentava mais fazer aquelas malditas fileiras: comecei a fazer losangos, espirais e outras figuras geométricas. Apareceu então a supervisora, uma mulher enorme chamada Frau Pappe, que perguntou gritando (ela não falava, só berrava) quem tinha feito aquilo. Timidamente, já com aquela cara de "pronto, fiz merda", admiti a responsabilidade. Ela chamou então o gerente, que me disse "Parabéns, Herr Heller, ficou lindo! Em trinta anos nunca ninguém aqui teve essa ideia! Infelizmente, na hora de cortar haverá mais de uma fruta que de outra, por isso terá que refazer tudo, mas mesmo assim parabéns, quem sabe um dia o Sr. não se tornará um mestre confeiteiro?"

Inacreditável!!! Alguém ficara trinta anos fazendo aquelas diagonais! Mais três semanas e eu teria me suicidado mergulhando numa bacia de pêssegos. Mas não atribuí minha insubmissão ao fato de ser artista, e sim à minha latinidade: a gente não se aguenta. Furamos filas, ignoramos regras, falsificamos a assinatura dos pais no boletim escolar (só fiz isso algumas poucas vezes, juro), burlamos leis, atravessamos fora da faixa, cruzamos sinais vermelhos, sonegamos um impostozinho aqui e outro ali. Somos "inventivos", "criativos" – para o bem e para o mal. Mas quem sabe isso ainda não fará de nós mestres confeiteiros?


Alberto Heller

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O tempo

O tempo a gente não vê, o tempo a gente não pega – mas o tempo nos vê e nos pega. Quis entendê-lo: consultei filósofos, teólogos e até poetas. Mas ao fim, só quem dele sabia eram os bichos e as plantas e as pedras.

Quis saber o que havia antes do tempo e o que haverá depois do tempo – pelo jeito, era o depois do antes e será o antes do depois. Aqui nada é claro, apenas o fato de que o tempo é muitos: ao mesmo tempo. Chamam de mistério; eu chamo de sonho. Com doce-de-leite.

Entender não tente: apenas aceite. Diga sim e siga em frente: atente. O destino é a velhice do menino, o gesto que perdura, o gosto da fruta que, cinquenta anos depois, a boca ainda sente, contente (e se na rima há rima, é porque o ouvido lembra e associa o que há pouco foi com o que agora soa: música-tempo, ritmo-tempo, corpo-tempo: memória e esquecimento – olvido).

O tempo tem tempo, por isso adora chás da tarde, aqueles que se alongam e emendam com a chegada da Lua. Ela agradece e faz uma reverência (é uma dama).

O tempo está na luz da estrela que não mais existe, no amor que ainda resiste, no Deus que, mesmo cansado, não desiste.

O tempo, o mesmo tempo (segundo Camões) de si chora. E passa, não demora ("Permanecei, instante! Tu és tão belo" – diz Fausto, e ao dizer isso é condenado).


Alberto Heller