domingo, 29 de maio de 2016

O legítimo direito à fuga

Uns anos atrás um grupo de detentos escapou de um presídio no Paraná, sendo recapturado pouco tempo depois. Lembro-me que um dos presos, quando entrevistado pelo repórter de um programa de TV, estava visivelmente indignado e bradava: "Só estou exercendo meu legítimo direito a tentar fugir da prisão". Na época achei aquilo engraçadíssimo – hoje, tenho dúvidas.

Se alguém comete um delito e é sentenciado, deve conformar-se em cumprir sua pena. Caso queira infringir (novamente) a lei e fugir, isso é outro problema. E quanto a achar que isso possa ser legítimo, é outro problema ainda. O que me deixa pensativo não é isso, mas o fugir de prisões de forma geral. Especialmente das prisões invisíveis: as do espírito, da mente, do trabalho, do sistema.

Em 1785 o filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham criou a ideia do panóptico: uma estrutura arquitetônica que permitiria a um vigilante observar pessoas sem que estas soubessem se estavam ou não sendo observadas. Ao publicar seu projeto numa série de cartas em 1787, na capa se podia ler a seguinte apresentação: "O Panóptico ou A Casa de Inspeção: contendo a ideia de um novo princípio de construção aplicável a qualquer sorte de estabelecimento no qual pessoas de qualquer tipo necessitem ser mantidas sob inspeção: em particular às casas penitenciárias, prisões, casas de indústria, casas de trabalho, casas para pobres, manufaturas, hospícios, lazaretos, hospitais e escolas; com um plano de administração adaptado ao princípio".

[Pena que na época ainda não se usasse a expressão "seus problemas acabaram", teria ajudado no marketing] De todo modo: supondo que estivéssemos num tal sistema, deveríamos nos submeter (docilmente, como diria Foucault) ou resistir, eventualmente até fugir?

Caso você (sim, você mesmo: sabemos quem é e onde mora) opte pela fuga, por favor sorria: está sendo filmado. E não, você não tem direitos sobre o uso da imagem. E sim: já está no YouTube e circulando nas redes sociais (aliás, acabei de postar lá um comentário, eu e outros 145 – 146, 147, 148...). 


Alberto Heller

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Bullying

Sofri muito bullying. Por anos, ir à escola representava um tormento: os valentões que, em grupo (sempre em grupo, os corajosos), ameaçavam, torturavam, batiam, xingavam, provocavam. Puro terrorismo físico e psicológico.  Nas festinhas (as famosas festinhas do começo dos anos 1980) não era muito diferente, de maneira que desenvolvi uma mistura de medo, repulsa e raiva por ambos, a escola e as festas.  Foi assim mais ou menos dos dez aos quinze anos de idade.

Mas aos quinze comecei a tocar à noite num piano-bar (foi um sufoco convencer meu pai a assinar a permissão de trabalho no juizado de menores), e de uma hora pra outra me senti acolhido e respeitado. Principalmente pelos bêbados que frequentavam o local. Um deles, viciado em vodka e que ia lá quase todas as noites, insistia em me dar conselhos; "o segredo" – disse ele certa vez em meio a uma chuva de perdigotos etílicos que salpicavam meus óculos – "é não deixar elas gozarem, senão se apaixonam". Ah!, a glória do mundo dos adultos! Mesmo entendendo na hora o porquê dele estar sempre sozinho enchendo a cara, achei o máximo poder pertencer a esse mundo às vezes sórdido mas tão menos cruel e brutal que o da escola.

Os anos passaram, fiz amigos, passei a pertencer a grupos. Mas sempre com um pé atrás, esperando ou sabendo que a qualquer momento viria o tapa, a traição, a sacanagem, o machucado. Minha experiência era a de que os grupos são, por natureza, hostis. Não apenas com os de fora, mas também com os de dentro, obrigados a pensar igual. Seja diferente e será castigado, pense diferente e será execrado. Hoje fujo de quase todos os grupos: os sociais, os políticos, os religiosos e, mais recentemente, os de WhatsApp.

Admiro os tigres que, diferentemente de hienas e de outros animais, não caçam em bando, mas sozinhos. Gosto desse jeito, sozinho sem ser solitário. Aprazo-me com essa ideia, satisfaço-me com essa imagem de mim mesmo fora dos bandos, fora dos rebanhos e das manadas. Mas aí o tigre chega em casa e encontra na caixa de correio as contas de luz, água, telefone, TV a cabo, internet, IPTU, IPVA, seguro saúde, seguro do carro... e é relembrado de que, gostando ou não, pertence ao grande grupo dos que pagam contas: a inclusão suprema.


Alberto Heller
QUADRO: "A porta do inferno", de Paulo Gaiad

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O espírito burocrático

É cada vez mais raro encontrar pessoas apaixonadas pelo que fazem. Digo: verdadeiramente apaixonadas. Em minha fantasia (e pode ser que seja só fantasia mesmo), quem no passado escrevia um livro (ou criava músicas, pintava quadros) o fazia por interesse genuíno e não para ganhar pontos no currículo Lattes. Hoje, as pessoas produzem porque "se espera que o façam"; vivem em constante modo de trabalho, em perpétuo regime de produção. Trabalho: um nome nobre que, sob o pretexto da utilidade e da rentabilidade, escraviza o desejo: nada mais é gratuito, toda ação é submetida ao inquérito da causalidade: por que você está fazendo isso? Para quê?

Todos vivem ocupados. Não mais perguntam se você tem algum projeto, mas "em qual projeto você está trabalhando agora?". É obrigatório estar em pelo menos um (de preferência em vários, o que explicaria você estar sempre em falta com a maioria deles). A agenda: a lista dos afazeres. Afazeres que nunca acabam, só se repetem (a repetição esvaziada de significado, o hábito esquecido de suas origens). O relógio das horas tediosas que nunca passam, das horas achatadas, quadradas, sem fim: a burocracia que parece se imiscuir nos mais remotos rincões de nossa existência e na qual todo eu-quero fenece em favor de um tu-deves. Para alguns, o casamento se torna a burocracia do amor; para outros, o trabalho se torna a burocracia da profissão.

Com o passar dos anos ela se torna rotina; esquece-se então de que é possível viver de outro modo (o perigo da burocracia é que ela se parece muito com a vida – só que sem graça alguma). O espírito burocrático: a não-vida das repartições públicas que contamina de não-calor e desprazer todos os espaço-tempos da existência-cor.


Alberto Heller

domingo, 15 de maio de 2016

Cultura

A noção de cultura é provavelmente uma das mais complexas e abrangentes do nosso vocabulário: difícil imaginar qualquer atividade que não esteja nela e por ela moldada, orientada, influenciada. Desde a forma como se organizam sociedades, religiões e costumes até a forma como falamos, andamos e comemos – tudo é perpassado pela cultura. Nossa civilização, nossa humanidade.

Entre os significados originais do termo cultura temos "lavoura" e "cultivo agrícola", passando mais tarde a designar também, por analogia, o cultivo da mente (curiosamente, tendemos hoje a chamar de "cultos" não os que lavram a terra, mas os habitantes urbanos...).

A raiz latina de cultura é colere, que pode significar desde cultivar e habitar até adorar e proteger. O 'habitar' evoluiu do latim colonus para o contemporâneo "colonialismo" (sim, a palavra mantém afinidades desconfortáveis com ocupação e invasão). Aculturar é também uma forma de colonizar: somos colonizados desde antes de nascer (o nome que nos dão, as projeções familiares – "ele será médico" –, a cor do quarto do bebê); somos colonizados ao longo da infância e da juventude (pela escola, pela sociedade, pela religião, a moral, os costumes), somos colonizados ao longo da vida adulta (pela faculdade, pelo trabalho).

Mas, curiosamente, a mesma cultura que nos mergulha no sono das obrigações e da rotina também nos possibilita abrir os olhos e enxergar que nos encontrávamos em obrigação e rotina. Estivéssemos na Matrix do filme dos irmãos Wachowski, a cultura seria tanto a pílula azul quanto a pílula vermelha: ao mesmo tempo o adormecer e o despertar.

E o que impede que nos tornemos meros escravos de um modus vivendi genérico e impessoal? Nada. Você pode perfeitamente passar pela vida como mero autômato (o que não chega a ser exatamente uma vida). Até o dia em que você fica de saco cheio e começa a fazer arte: pinta o sete, picha um muro, passa um trote pelo telefone, aperta uma campainha e sai correndo. Ou escreve livros, compõe canções, dança. Subverte a ordem das coisas. A chata e insossa ordem das coisas.


Alberto Heller

domingo, 8 de maio de 2016

A busca nos protege do encontro

Na febre dos manuais de autoajuda, tudo parece possível e alcançável – desde que se sigam certas regras, desde que se cumpram determinados "programas": os dez passos para se chegar à felicidade, os sete degraus para a vitória, as oito etapas da dieta infalível etc. Você só precisa de paciência, disciplina e muito (MUITO) esforço. Afinal, deve provar que é merecedor do grande prêmio, prêmio que não está lá para todos, apenas para os que suportam o calvário e demonstram assim ser dignos. Desconfie das soluções fáceis; ria dos que propuserem opções rápidas: chegar lá é (tem que ser) muito (MUITO) difícil!

Hermann Hesse, no livro Siddhartha, conta a história do príncipe que chegou a Buda; em dado momento, este reencontra seu amigo Govinda, parceiro de anos na busca pela iluminação. Govinda lhe pergunta justamente por que Siddhartha chegou à iluminação e ele, que a buscou com tanto afinco e por tanto tempo, não, recebendo como resposta que "quando alguém procura ocorre facilmente que o olho só veja o objeto que procura, que não encontra nada nem se permite interiorizar nada porque só pensa no que busca, porque tem um objetivo e porque está obcecado por esse objetivo. Procurar significa: ter um objetivo. Encontrar, porém, significa: ser livre, estar aberto, não ter um objetivo. Tu, ó caro, és em realidade um dos que buscam, pois, perseguindo teu objetivo, deixas de ver o que está ao alcance dos teus olhos".

Bonito. Interessante. Mas não pode ser assim tão simples. Desconfiados, continuamos procurando, continuamos buscando. E quando estamos a ponto de encontrar – nos assustamos! e voltamos a procurar. A busca nos protege do encontro, a viagem nos afasta do objetivo. Calma: isso é típico do estágio nº11; depois melhora... 


Alberto Heller