domingo, 24 de abril de 2016

Neste exato momento ao redor do mundo (e que não está nas notícias)

O que nos mostram é apenas uma fração. Não interessa saber o quão importante, verdadeira, urgente ou significativa seja essa fração: ela é apenas parte, fragmento, ínfimo detalhe de um universo mágico e inesgotável. O que a TV exibe, o que os jornais e revistas publicam, tudo faz parecer que há um foco principal e que nossos olhares e nossa atenção deveriam estar permanentemente dirigidos para isso que insistem em nos mostrar. Assim focados (hipnotizados), perdemos, a nós e ao mundo.

Neste exato momento um tímido jovem angolano pede uma moça em namoro e, para sua surpresa e felicidade, ela aceita. Neste exato momento uma violinista iraniana erra uma nota, sorri e continua tocando. Neste exato momento um pai finlandês ensina seu filho a plantar uma árvore e o menino mal pode crer que aquela mudinha se tornará um dia um gigante. Neste exato momento um ancião na Nova Zelândia sorri dormindo enquanto sonha. Neste exato momento uma flor desabrocha nas altas montanhas do Nepal entre pedras e neve, longe de qualquer olhar. Neste exato momento em algum ponto da Cordilheira dos Andes uma família se reúne depois de muitos anos e seus integrantes redescobrem o quanto se gostam. Neste exato momento uma senhora japonesa ouve o som do vento no bambuzal enquanto toma chá em seu jardim e isso lhe traz suaves recordações. Neste exato momento você está lendo este texto – e no momento seguinte terá se esquecido dele. E é como tem de ser: o participar de cada novo instante que desabrocha, o desfrutar do tempo que se nos dá.

Alberto Heller

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O talento para a música

Veio-me à memória estes dias um congresso sobre educação musical do qual participei em Frankfurt, na Alemanha; a palestra por mim mais aguardada no evento era a de um importante autor na área da psicologia musical, Rolf Oerter. Seu tema, na fala daquele dia, era a questão do talento: como (e quando) percebê-lo em crianças e jovens. Logo de cara, chocou a plateia ao declarar que, de acordo com sua experiência, só era possível saber se alguém tinha talento para a música depois de cinco ou seis anos de prática. Ou seja: que facilidade ou dificuldade nos primeiros meses de estudo não queriam dizer praticamente nada. Com o passar do tempo, era uma soma de vários outros elementos que produziam um diferencial, tais como a capacidade de passar muitas horas sozinho estudando, a paciência para repetir trechos centenas de vezes, a perseverança e, acima de tudo: a capacidade de lidar com frustração. Porque a experiência da frustração é diária: as notas que insistem em sair errado, a sonoridade almejada e não alcançada, a técnica que leva uma quantidade absurda de anos para estabilizar-se (e que mesmo depois disso nunca chega a dar garantias absolutas), os nervos que ocasionalmente falham, o corpo e seus ânimos que teimam (graças a Deus) em não ser máquina e mudam permanentemente. Em música, não importa quão bem tenha soado, sempre pode soar melhor. É o paraíso (ou inferno?) dos neuróticos perfeccionistas que transformam a música em algo a ser continuamente conquistado, melhorado, ultrapassado (também o esporte sofre disso e com isso: o prazer que o corredor sente em correr é bom, mas do esportista profissional se espera mais que prazer, se espera resultados, competições, vitórias).

Fico pensando: existe o talento para a vida? Ouve-se sempre que na vida você tem que ser "um vencedor"; só "ter prazer" não basta – afinal, isto não é para amadores: é preciso ter metas, empenho, desempenho, resultados. É preciso "chegar lá" (seja lá onde isso fique). E prepare-se: você tem que saber lidar com frustrações: com os empregos medíocres, os salários ruins, os amores perdidos, o corpo fora dos padrões de beleza das estrelas de Hollywood, a poeira que insiste em se instalar sobre os móveis, os pratos que insistem em povoar a pia, as contas que insistem em encher a caixa de correio, os entes amados que insistem em morrer. A vida não é fichinha, é preciso ter talento. Eu não tenho. Mas quem sabe a próxima música sairá melhor.


Alberto Heller

domingo, 3 de abril de 2016

O apocalipse, os zumbis e a poesia

Com atraso de alguns anos, estou finalmente assistindo àquele seriado Walking Dead. Para quem não conhece: num cenário pós-apocalíptico, zumbis dominaram o mundo e os humanos restantes lutam desesperadamente pela sobrevivência. Suas preocupações se resumem a encontrar comida e, ao mesmo tempo, não virar comida (de zumbi). Nesta madrugada (depois de quatro episódios jurando ser aquele o último antes de finalmente ir dormir) me vi pensando – como sempre – em bobagens: num mundo assim, qual seria o lugar (ou o papel) da poesia (poesia designando genericamente todas as expressões artísticas, da música à literatura, da pintura à dança, do teatro à escultura)? Ou estaríamos tão (preo)ocupados tentando não morrer que todo poético ficaria excluído e sem lugar algum?

            Num universo reduzido às necessidades básicas, a arte apareceria apenas enquanto luxo, reminiscência nostálgica, devaneio histórico aludindo uma sociedade perdida, ou continuaria tendo um apelo humano atual e necessário? Somos os artistas úteis? Enfim, a pergunta que me angustia tem uma natureza bem "prática e realista": num mundo povoado por zumbis ou dinossauros ou extraterrestres, faria sentido eu continuar tocando piano, compondo e escrevendo?

            Vem-me à memória uma cena de um filme (absolutamente não recordo o título) no qual um avô dá banho em seu neto e, enquanto isso, conta a história da formiga e da cigarra. A cigarra passara o verão todo cantando enquanto a formiga não parava de trabalhar. Por mais que a formiga precavida e laboriosa avisasse sua colega dos perigos de sua conduta irresponsável, a cigarra só queria saber de cantar. Mas eis que acabou o verão, veio o frio e a neve, os alimentos praticamente desapareceram. "O que aconteceu então, vovô?", perguntou o menino. "A cigarra comeu a formiga", respondeu o avô.


Alberto Heller