domingo, 27 de março de 2016

A moça e o precipício

Era ela contra o vazio, o vazio contra ela. De cima do edifício observava a noite sob seus pés, vinte andares mais abaixo, vinte andares acima do solo; equilibrista na corda bamba entre duas forças. E só quem já subiu nas alturas e assomou-se a um parapeito sabe da força, do fascínio e da sedução provocados pelo nada. A ação da gravidade faz-se proporcional ao medo, e o súbito precipitar-se, proporcional ao desejo de libertação – combinação perigosa para quem está nas alturas. O convite é doce. E fácil! De uma facilidade quase irresistível. Apenas um passo e...

Não, ainda não! A sensação de poder sobre a vida e a morte deve ser ainda mais um pouco saboreada. Ela se senta e acende um cigarro; joga os cabelos para trás e olha o céu: mil estrelas, lindo! Pela primeira vez em muito tempo, não tem pressa. Nem pressa nem medo. Afinal, por que um morto teria medo da vida? Ela dá uma gargalhada. E desce – mas de elevador. Entre os passageiros, ninguém repara que está viajando com uma morta. Se eles soubessem!... Chegando à rua, começa a fazer coisas que como viva jamais tivera coragem de fazer: dá cambalhotas no meio da calçada, mostra a língua a uma senhora mal-humorada, rouba um pirulito de uma banca de doces. Sobe então uma colina, acende outro cigarro e espera pelo nascer do sol, que lentamente se ergue esplêndido no horizonte.


Alberto Heller

domingo, 20 de março de 2016

A tarde transfigurada (ou: O Duelo)

Após semanas de intransigentes brigas à distância, as palavras cada vez mais duras no embate das ideias antagônicas, decidiram finalmente ter chegado ao limite: somente uma ideologia poderia ser verdadeira, logo somente uma poderia sobreviver. Marcaram um duelo.

            Chegaram ao local do encontro com suas armas devidamente carregadas e afiadas: os passos decididos, a respiração intensa, o olhar fixo. Ainda uma última vez cada um tentou provar o quão estúpidas eram as teorias do outro, e mais uma vez confirmou-se que suas posições eram inamovíveis, seus credos, irreconciliáveis. Decidiram-se então pela espada, mas a falta de jeito dos dois com a lâmina era visível – "já duelou antes?", "não". Olharam-se então de outro modo, subitamente cônscios da fragilidade um do outro. Perceberam pela primeira vez os traços de cada um: sua expressão, seu rosto, rugas, cicatrizes, jeito de vestir, jeito de andar. Esperaram, calados, e quase que ao mesmo tempo recuaram. Espadas novamente embainhadas, um chá foi preparado. Sentados, bebiam, perfumando-se de silêncio. Assim encontrou-os o entardecer, os corações apaziguados pela brisa fresca. Já não havia ideias: apenas dois homens, irmanados com a natureza, acolhidos pela mãe-terra, respirando noite adentro.

                        Alberto Heller

domingo, 13 de março de 2016

"Porque és morno, estou a ponto de vomitar-te"

Talvez seja o fato de eu ser geminiano com ascendente em peixes (ambos duais – sinto-me quádruplo, quando bebo viro oito) que me faça ter certas dificuldades com as polarizações. Percebi isso novamente esta semana em função dos debates políticos no Brasil: você é de direita ou de esquerda? Sinceramente, não sei; tem dias e situações em que me inclino para um lado, dias e situações em que me inclino para o outro. Serei um mero oportunista? Carecerei de valores mais profundos? Me faltará clareza política? Talvez. Escrevi outro dia que prefiro uma boa esquerda a uma má direita e uma boa direita a uma má esquerda. Pareceu uma frase inteligente no momento, mas depois fiquei preocupado se ela não é antes um indicativo de que estarei apenas flutuando à deriva e sem rumo certo, sendo levado pelos acontecimentos de maneira inconsciente e aleatória.

Bom, talvez eu seja de "centro", nem de direita e nem de esquerda. Um "moderado". Mas existirá isso? Ou será apenas um eufemismo, uma palavra elegante que substitui covardia ou indiferença? Nas filosofias e tradições milenares do Oriente (Budismo, Tao) há a recomendação em relação à importância do caminho do meio, do caminho da moderação. Mas tal "meio" não é um lugar específico e sim um modo, uma maneira do caminhar – afinal, posso ter uma postura moderada estando na esquerda, na direita e no centro. Ou não. creio que no fundo tenho certo medo daquela passagem da Bíblia (Apocalipse 3:15,16) onde se lê  "Conheço as tuas obras: que nem és frio nem quente; quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e não és frio nem quente, estou a ponto de vomitar-te da minha boca". Serei morno?

Canso-me de pensar e assalto a geladeira (a vida moderna impõe demasiadas distrações como que para pensar tais questões a fundo – penso, logo desisto...). Creio que (novamente) ficarei com John Cage: "Indo em diferentes direções a gente consegue, em vez de separação, um sentido de espaço". Viva o espaço!


Alberto Heller

sábado, 5 de março de 2016

Destruindo ou criando?

Trabalhei por vários anos num projeto de artes integradas que visava o desenvolvimento da criatividade dentro de uma dimensão terapêutica (sem pretender ser, porém, arte terapia ou prática similar). Éramos vários artistas, cada um de uma área (música, dança, teatro, artes plásticas, cinema, fotografia, literatura). Aprendi muito com as crianças, jovens e adultos que participaram nesses estúdios (palavra que escolhemos para evitar oficina, aula, workshop etc., que poderiam dar a entender que fôssemos professores ou que estivéssemos ali no intuito de ensinar algo que sabíamos a pessoas que não sabiam – o que absolutamente não correspondia à realidade). Um caso me marcou muito (como sempre, um dos ditos "casos difíceis"): um garoto de uns oito anos que chegou lá com o "diagnóstico" de hiperativo. Mesmo sendo contrário a tais estigmatizações, o termo parecia acertado: o menino não parava um instante nem conseguia se concentrar por mais que alguns segundos em qualquer atividade. Como se isso não bastasse, era notavelmente destrutivo: quebrava todas as peças de arte que produzia (e, se não cuidássemos, também as dos colegas), rasgava as pinturas, enfim, destruía o que lhe aparecesse pela frente. Não porque fosse agressivo (paradoxalmente, era muito doce), nem o fazia por mal, simplesmente tinha prazer em quebrar, rasgar, destruir.

Num dos últimos encontros do semestre resolvi fazer com cada um dos participantes um vídeo; no caso dele, sugeri que fizéssemos um vídeo no qual ele poderia ficar justamente quebrando coisas. Ele adorou a ideia e logo a pusemos em prática. Selecionamos um monte de peças de argila, as colocamos no chão e ele escolheu um pedaço de bambu para o massacre. Batia, batia, batia, juntava os pedaços, observava-os com interesse, colocava-os novamente no chão e a bateção recomeçava. O processo teve inúmeras repetições. Pela primeira vez, ele ficou concentrado (completamente concentrado) por vários minutos numa mesma atividade (chegou a quase dez minutos!). Os destroços iam ficando cada vez menores, e cada vez com maior interesse e fascínio ele os estudava, para depois reagrupá-los e quebrá-los mais um pouco. Em certo momento trocou o bambu por um martelo de borracha. A essa altura, as peças de argila mais pareciam ruínas de alguma antiga civilização perdida, para depois parecerem apenas um monte de areia – mas ele continuava batendo e estudando atentamente as partículas obtidas. Seus olhos brilhavam, seu corpo fluía. Foi quando, finalmente, me dei conta: ele não estava destruindo, estava criando.

[Mais tarde, pedi que cada um escolhesse uma trilha sonora para seu vídeo; após analisar diversas opções, ele se decidiu por Black Sabbath – Heaven and Hell. Ficou uma obra de arte.]


Alberto Heller