domingo, 28 de fevereiro de 2016

Lições de uma indígena australiana

Em 2012 participei do encontro anual SAND – Science and Nonduality – em San Rafael, Califórnia. Durante vários dias, mais de cinquenta conferencistas de várias partes do mundo debateram temas ligados a religião, ciência, psicologia e antropologia, tendo sempre em comum o anseio humano pela dimensão espiritual. Hinduístas e xamanistas, budistas e cristãos, sufis e cabalistas – junto a físicos, médicos, psiquiatras, artistas, gurus, professores, filósofos, sociólogos –, todos conversando, debatendo, aproximando-se e distanciando-se em suas teorias e práticas, mas sempre com amabilidade e respeito.

Além dos nomes famosos e badalados, havia também um grande número de profissionais administrando, paralelamente, palestras, práticas e vivências em locais menores. Foi lá que tive a sorte de conhecer uma indígena australiana chamada Denise Groves, que deu uma conferência intitulada Cosmologia Indígena. Falou basicamente da vida em sua tribo, os Nyiapali; do conceito central de terra (bem diferente de nação ou país), de sua interconexão com a natureza, com as estrelas, com o cosmos. O tempo todo usava o 'nós', raramente o 'eu'. Foi quando me dei conta de que os outros conferencistas haviam falado o tempo todo apenas no eu, no indivíduo: falavam na experiência pessoal, na iluminação pessoal, na salvação (pessoal) da alma, na meditação pessoal, nas dores e superações pessoais. O indivíduo fora do seu grupo, ausente da sociedade, independente dos laços sociais: abstrato e abstraído em uma espiritualidade solitária e alienada. Na verdade, a Srta. Groves sequer usou a palavra espiritualidade: falou em interconexão, em interdependência, na continuidade da vida, no fluxo dos ciclos naturais (nascimento e morte, estações do ano etc.) – tudo isso a partir de uma vivência comunitária e social.

Um autor tibetano que muito aprecio, Chögyam Trungpa, escreveu em 1973 um livro intitulado 'Cutting through spiritual materialism', onde denuncia um erro comum: achar que estamos numa vereda espiritual quando estamos apenas consumindo produtos ditos "espirituais" colocados a serviço de uma lógica utilitarista e neurótica à qual chamou materialismo espiritual. Tipo o sujeito que se tranca sozinho numa sala, senta-se num tapete especial para meditação (comprado numa loja especializada em artigos esotéricos), acende um incenso, coloca um CD de música "espiritual" e medita para que, alcançada a "harmonia interior", obtenha mais sucesso nos negócios.

Perdemos o contato com a terra. Com o simples. Com o grupo. A verdadeira espiritualidade renuncia até mesmo ao seu próprio nome.


Alberto Heller

domingo, 21 de fevereiro de 2016

A(s) pergunta(s) que cala(m)

Num artigo escrito às vésperas do Natal de 1964, intitulado "Carta ao meu filho", Umberto Eco declarava, na contracorrente dos movimentos em prol do desarmamento e da não-incitação à violência, que daria de presente ao seu filho armas de brinquedo. Montes de armas, dos mais variados tipos. Porque ao brincar de guerras e batalhas o menino aprenderia, ludicamente, a diferença e os limites entre fantasia e realidade, entre jogo sadio e ódio insensato.

Já nos últimos anos as discussões pedagógicas (especialmente entre os partidários do "politicamente correto") mudaram o foco de suas críticas, nem se lembram mais das tais armas de brinquedo (e os que delas se lembrarem certamente sentirão saudades): a questão agora é quais aparelhos eletrônicos dar às crianças (smartphones, tablets, computadores), quando, quanto e de que modos permitir seu acesso etc.

Dilemas. Dar ou não dar armas; dar ou não dar celulares; permitir ou não permitir livre acesso à internet. Todo dilema evita uma questão mais central, que permanece oculta. Criamos e nos enredamos em estratégias de irrelevâncias nas quais, sempre ocupados, esquecemos de fazer as perguntas pulsantes, aquelas que sangram. Buscamos incessantemente, mas a busca nos protege do encontro. Desviamos sistematicamente o foco, permanecendo refratários ao que é fundamental, anestesiados sob montanhas de banalidades. Indagados se preferimos A ou B, sofremos e nos angustiamos pela resposta correta, e enquanto isso esquecemos de pensar em C (e em X, Y, Z) – naquilo que (se) cala. Como répteis perante um facho de luz intensa, ficamos paralisados, hipnotizados; nos ocupamos até o limite, e enquanto isso continuamos falhando miseravelmente naquilo que é mais crucial.


Alberto Heller

domingo, 14 de fevereiro de 2016

"...é que há distância entre intenção e gesto..."

Tive aulas de piano por dois anos com ele, na Alemanha; era sueco, chamava-se Arne Torger. Certo dia ele encasquetou que uma música que eu acabara de tocar não estava boa. Fiquei chateado, era uma peça que me emocionava muito e, ao menos assim me parecia, não estava tão ruim como ele insistia em afirmar. Toquei-a várias outras vezes nesse mesmo dia, a aula foi ficando tensa, tipo duelo de faroeste. Finalmente ele se atirou exausto numa cadeira e disse: "Alberto, pode ser que o que você esteja escutando dentro da sua cabeça esteja lindo; mas o que está vindo aqui para fora não está". Aquilo doeu. No dia seguinte me gravei e, ao ouvir a gravação, não pude deixar de dar-lhe razão. Como diz Chico Buarque em seu Fado Tropical, "é que há distância entre intenção e gesto".

Há frases que continuam ecoando eternamente nos labirintos de nossa memória. Essa é uma delas. Volta e meia me pego ouvindo-a novamente, e passo a desconfiar da acuracidade de minhas percepções. Afinal (dizia Lacan), somos todos delirantes. Sinto-me como Chuang-Tzu em seu sonho da borboleta: ao acordar ele não sabia se havia sonhado que era uma borboleta ou se era ela, a borboleta, quem sonhara ser Chuang-Tzu.

A realidade... ah, a realidade...


Alberto Heller

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O Carnaval e a Biblioteca

Duas ou três vezes por ano arrumo minha biblioteca: tiro todos os livros, limpo-os um por um e os reorganizo em nova ordem. É uma delícia! Relembro as obras maravilhosas que tenho, os livros que me marcaram e que quero voltar a ler, os livros que ainda não li, os livros que talvez nunca venha a ler mas que ali estão, fazendo companhia. É melhor que Natal, é como se voltasse a ganhá-los todos de presente. E por estarem agora dispostos em nova ordem, meus olhos voltam a vê-los, não são mais mero fundo habitual, mas tesouros de possibilidades ao alcance da mão. A energia antes estagnada volta a fluir, a criatividade fica à flor da pele, já não sei se leio, escrevo, toco ou componho (meu piano e minhas partituras fazem parte do mesmo espaço). Acendo um incenso, faço um ikebana, observo o jardim: paz.

Enquanto isso, o Carnaval passa nas ruas. Fico contente ao ver as pessoas pulando e se divertindo, felizes. Meu jeito de estar feliz é menos movimentado, menos ruidoso, menos sociável, mas não por isso menos jubiloso; entre livros viro Pierrot, Arlequim e Colombina, viro Teseu, Ariadne e Minotauro, xerife, astronauta e policial – um verdadeiro baile de máscaras! Viajo com o Expresso do Oriente e chego ao Peru, navego o Nilo e desemboco na Islândia, escalo o Aconcágua e descubro Shangri-La.

Depois do Carnaval vestirei uma camisa e irei trabalhar. Mas os olhares atentos perceberão, por baixo da roupa séria, minha pele de loucura.


Alberto Heller

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Enquadramento: limitar para libertar

Conectamos a ideia de liberdade com a permissividade total, com as possibilidades ilimitadas e irrestritas. Posso tudo, logo sou livre.

No excelente documentário Janela da Alma (2001 – João Jardim e Walter Carvalho), no qual várias personalidades são entrevistadas a respeito do olhar e da visão, o cineasta Wim Wenders fala da importância do enquadramento (framing). Segundo ele, a questão do enquadramento não é tanto o que fica "dentro", mas o que fica "fora", o que não se mostra. Enquadrar significa uma escolha contínua em relação ao que será excluído. Ele comenta então que certa vez tentou usar lentes de contato mas que não se adaptou, pois com elas "via demais", sentindo então falta do enquadramento propiciado pela armação de seus óculos.

Zizek, no livro A visão em paralaxe, afirma que "em seu aspecto mais elementar, a liberdade não é a liberdade de fazer o que se quer (isto é, de seguir nossas tendências sem nenhuma restrição imposta de fora), mas fazer o que não se quer, frustrar a realização 'espontânea' de um ímpeto. (...) O gesto ético elementar é um gesto negativo, é bloquear nossa tendência direta".

Hoje queremos tudo mas não nos contentamos com nada (somos escravos infelizes da oferta infinita). Acesso bibliotecas online onde estão disponíveis infinitos volumes; ziguezagueio entre muitos mas não me detenho em nenhum. Sinto certa inveja dos antigos, que só possuíam alguns poucos livros copiados a mão os quais carregavam sempre consigo: seu tesouro.

Alberto Heller