segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O livro de areia

Esse é o título de um dos mais famosos contos de Jorge Luis Borges. Trata-se, o tal livro de areia, de um livro mágico: cada vez que é folheado, transformam-se-lhe as páginas (cuja numeração é completamente arbitrária) e seus conteúdos – é, portanto, infinito. Aquilo que for lido/visto deve ser muito bem apreciado, pois nunca mais retornará. Ao longo do conto, o livro é chamado de impossível, de monstruoso, um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade. O proprietário dessa estranha obra, que tenta vendê-la ao narrador da história (desfazer-se da maldição seria mais apropriado), explica a certa altura: "Se o espaço é infinito estamos em qualquer ponto do espaço; se o tempo é infinito estamos em qualquer ponto do tempo". O livro e a areia (e o espaço e o tempo): infinitos. O narrador faz negócio e adquire o tesouro (paga-o com sua aposentadoria e com uma bíblia antiga). Com o passar do tempo, percebe que enlouquece; desfaz-se então do volume escondendo-o entre os milhares de livros da Biblioteca Nacional.

Devo tê-lo encontrado, sem querer: seres amados têm se ido para não mais voltar; coisas que faziam sentido deixaram de tê-lo. Em compensação, outras coisas apareceram, outros sentidos se formaram. O livro é realmente fantástico e inesgotável.


Alberto Heller

domingo, 3 de janeiro de 2016

E todo grito virará canção

Lá pelo século VI antes de nossa era, o Rei Fálaris de Agrigento (atual Sicília) mandou construir uma máquina infernal: um touro de bronze oco, adaptado com tubos sonoros; dentro dele, condenados eram trancafiados e uma fogueira era acesa sob o ventre da besta para que fossem lentamente queimados vivos. Mas o requinte da crueldade eram os tubos, que transformavam os gritos das vítimas em harmoniosas melodias.

Hoje já não temos touros de bronze, mas a lógica – de "melodizar" o sofrimento humano – persiste. Na internet, especialmente nas redes sociais, temos a falsa sensação de que todas as nossas queixas encontrarão interlocutores e respaldo, que seremos ouvidos e consolados. Mas após as primeiras 24 horas de comentários e apoios virtuais, calam-se as vozes, os interesses retornam às novidades do dia (o consumo e o entretenimento), volta-se ao silêncio. O grito (seja de dor, tristeza, raiva ou indignação) vira uma "lembrança" na timeline e ali se perde, mesclado a mil outros momentos. Pequenas dissonâncias agora incorporadas à grande sinfonia de um coro invisível. Pode gritar à vontade: aqui tudo vira música.

Alberto Heller