terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Os sinos e o piano

Era uma sala de concertos num pequeno palácio residencial construído em 1849 – hoje uma diaconia – perto de Stuttgart, na Alemanha (um vilarejo chamado Kernen Stetten). Não me lembro se o ano era 1995 ou 1996 (sou péssimo com datas); tinham marcado meu recital de piano para um domingo final de tarde. Eis que, no meio da apresentação, começam a tocar os sinos da igreja ao lado. O som era bastante forte, fui obrigado a interromper o que estava tocando. O público e eu esperávamos pacientemente que as badaladas terminassem, mas elas pareciam não ter fim. De brincadeira, comecei a tocar ao piano as notas correspondentes e logo estava improvisando junto com os sinos. Aquele salão de mármore com cortinas de veludo vermelho, a paisagem outonal cheia de folhas amarelas e vermelhas entrando pelas janelas, os sinos que já não eram interrupção mas oportunidade de novas harmonias: subitamente o tempo parara. O momento deve ter durado apenas um ou dois minutos, mas teve sabor de eternidade.

Finda a apresentação, ninguém comentou as peças do programa, somente o improviso. Também em minha lembrança não ficou sequer vestígio do repertório ou mesmo das notas que surgiram durante a improvisação. Mas ficou a sensação, na pele e na alma, daquele silêncio palpável, adocicado.

Talvez a vida seja isso: aquilo que acontece quando saímos do script e fazemos música com os sons que estão no ar. 


Alberto Heller

domingo, 18 de dezembro de 2016

Mosaico

Minha mãe costumava (talvez ainda costume, não sei) comprar vestidos para usar somente em ocasiões especiais; estas, porém, demoravam tanto em chegar, que os vestidos já não serviam mais. Ela então se sentava na cama e chorava, desconsolada. nnnn Hoje estive na praia; queixei-me a Iemanjá sobre 2016 ter levado meu pai e dois grandes amigos. Uma onda veio e acariciou meus pés. nnnn Vou compor uma ópera e estou à procura de uma história. Hoje foi a vez de revisitar Shakespeare; as edições sempre distinguem e separam as comédias das tragédias – isso me desnorteia. nnnn Ano passado, passeando por Las Vegas, apaixonei-me à primeira vista por uma camisa, mas não tinham do meu tamanho. Comprei mesmo assim um número menor, jurando que iria emagrecer só para poder usá-la. Engordei. nnnn Ir ao cabeleireiro é uma situação sempre existencial para mim: ficar ali trinta minutos olhando para a própria cara no espelho é algo que eu jamais faria em outro contexto. É quando começamos a perceber o quão estranhos somos para nós mesmos. E a cada ida, percebo nos cabelos que caem o quanto aumenta a quantidade de fios brancos (grisalhos, diga, grisalhos). nnnn Sábio é o dicionário, cujo fim está no meio. nnnn As pessoas (eu incluído) andam(os) violentas, impacientes, intransigentes; melhor seria se fizéssemos mais silêncio e apenas observássemos. Mas as palavras insistem, e insistem, e insistem. nnnn Com quatro anos eu tinha um coelhinho de borracha que adorava; certo dia, brincando com ele na beira do mar, veio uma onda mais forte e o levou. Durante o resto daquele verão fiquei na praia esperando que o mar o devolvesse. Não devolveu. nnnn  Gosto muito de Monet, e lembro da minha emoção ao ver A Catedral de Rouen de perto; na proximidade não se vê catedral alguma, somente manchas, relevos enigmáticos de cores, montanhas e ondas de tinta que misteriosamente formam, quando vistos de longe, uma outra coisa. Fico pensando que desenho formará minha vida quando vista à distância. Por enquanto, só vejo borrões. nnnn Enquanto escrevo, acabo de matar um pernilongo. Um tapa forte e bem dado, tanto que uma de suas pernas veio parar entre as teclas do computador. E eu querendo falar de poesia... nnnn O título mais lindo que já vi num livro é do meu conterrâneo Júlio Cortázar: "Viagem ao redor do dia em oitenta mundos". Ainda não li. nnnn  O incenso que acendi mistura-se ao cheiro da fumaça de queimada (folhas?) vindo da vizinhança e que entra pela janela entreaberta do meu escritório. A mistura de odores não deixa de ser interessante. Mas calei o rádio de um carro (cujo som também estava entrando pela janela, junto com a fumaça) colocando o Adágio da Nona Sinfonia de Mahler no fone de ouvido. Meu amor pela humanidade tem limites.

Alberto Heller

sábado, 10 de dezembro de 2016

A liberdade de Horowitz

Se me fosse permitido roubar um pouquinho de cada pianista que admiro, eu pegaria a classe de Radu Lupu, a profundidade de Claudio Arrau, a concentração de Emil Gilels, a clareza de Maurizio Pollini, o vigor de Alfred Brendel, a força de Sviatoslav Richter, o acabamento de Andras Schiff, a polifonia de Glenn Gould, o lirismo não sentimental de Wilhelm Kempff. De Vladimir Horowitz, a imensa riqueza de timbres, a espontaneidade, a liberdade. 

Desses atributos talvez pareça ser a liberdade o mais estranho – ou ao menos o que pareceria o mais simples: ser livre. Basta querer, certo? Errado. A liberdade é uma conquista. Exige imensa disciplina, maturidade, anos de profundos estudos [John Cage: "Preciso encontrar um meio das pessoas serem livres sem se tornarem imbecis. De forma que sua liberdade as torne nobres. Como farei isso? Eis a questão"].

Horowitz toca e quase parece estar improvisando; experimenta as teclas do piano como quem diz "vejamos o que acontece se eu fizer isso – uau, que legal!". As notas adquirem sabor de novidade, de presente de Natal, de algo que está sendo criado naquele preciso instante – ou seja, ele consegue esconder os rastros do estudo (tocar bem uma obra musical significa centenas de horas de prática ao longo de muitos meses, o que facilmente embota o brilho e a cor da interpretação – é quando o ouvinte percebe o cansaço de um discurso mil vezes proferido, diligente mas sem viço, "corretamente" executado mas sem arte, sem aura).

Ser livre não é fazer qualquer coisa, não é ceder a vontades e caprichos, não é ser permissivo sem critérios, sem limites, sem parâmetros; isso é escravidão (a não capacidade de negar ou controlar impulsos). Leigos e iniciantes tendem a pensar que a fidelidade ao texto, no caso da música clássica, é uma espécie de prisão, uma não liberdade pela falta de espaço para criação. Engano! Cria-se espaço e tempo dentro das notas, entre as notas (inter-petras), a partir das notas. É como na democracia: as pessoas pensam que são livres, mas poucos verdadeiramente o são, poucos verdadeiramente a aproveitam.

Alberto Heller

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

"Até chorei..." – desconfie!

Era um retiro de idosos numa pequena cidade alemã: uma soprano e eu apresentamos lá um recital de canto e piano com obras de compositores sul-americanos. Pareciam estar gostando muito. Até que, em dado momento, uma senhora em cadeira de rodas começa a chorar em meio a uma canção. Ótimo, pensei, estamos interpretando bem. Mas trocou a música e a velhinha continuava chorando. Puxa, emocionou mesmo! Mais duas músicas e o choro não passava – pelo jeito a coisa tinha pego fundo. Uma enfermeira apareceu e empurrou a cadeira até outra sala. Findo o concerto, já me dirigindo à saída, vejo a senhorinha num canto ainda chorando e murmurando algo; apiedado, aproximo-me para confortá-la, quando finalmente ouço o que ela resmunga repetidamente em meio às lágrimas: "Não gostei, achei horrível, não era isso que eu queria ouvir, façam eles irem embora!".

Pois é, as coisas nem sempre são como pensamos que são. Os enganos aparentam: alguns riem sérios, outros vibram quietos; alguns entristecem em sorrisos, outros falam por silêncios. E há ainda as falsidades, claro. E as sublimações. E os desajeitos. E os mistérios. Há de tudo, muito.

Por isso, cautela: não julgue apressadamente (mas também não jogue fora a primeira intuição). E se após um concerto alguém te disser que "até chorou de emoção", desconfie: pode ter sido a emoção por ter acabado.

Alberto Heller 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O tédio no olhar

O tédio no olhar: quando o olhar não está permanentemente ocupado, isto é: buscando, procurando, vasculhando, projetando, verificando, trabalhando. O tédio no olhar é quando nada acontece e tudo acontece. É o olhar quando repousa numa obra de arte e ali, artisticamente, se faz – surge. Quando se demora – que é quando nasce o tempo (autopoiesis, autocriação; Santo Agostinho: "Não houve tempo nenhum em que não fizésseis alguma coisa, pois fazíeis o próprio tempo"; Confissões, XI-14).

Um tédio onde o olhar espera ao invés de expectar (duas formas bem distintas de viver o tempo). Assim esperando, de repente desabrocha, floresce (no tempo certo, não antes). O tempo de uma gestação.

Mas toda fecundação requer espaço, e o espaço surge na medida em que a vida não está toda preenchida por afazeres, por notícias que não nos interessam, mensagens por responder, chatices, fofocas e entretenimentos (os "lazeres") infinitos que adiam nossa presença. Ausente, o olhar não vê, apenas opera. Máquina.

O olhar-tédio desmonta o olhar-agenda. E assim, esquecido-distraído, subitamente . Admirado, compraz-se com a visão.

Encontra por não buscar, cria por não fazer. Maravilha-se.


Alberto Heller