terça-feira, 29 de dezembro de 2015

666 – Feliz Natal!

De uma hora pra outra, um dos meus cães resolveu ficar epiléptico. Convulsões fortes, uma depois da outra, terrível. Após 48 horas de bravos esforços do veterinário (sendo as últimas 24 horas na UTI), finalmente reverteu-se o quadro e pudemos levá-lo de volta para casa. Fui então à farmácia comprar o remédio receitado para que novas convulsões fossem prevenidas.

            A atendente da farmácia, após desejar efusivamente feliz Natal, foi pegar o remédio mas, subitamente séria, disse que não poderia vendê-lo pois o veterinário usara uma guia equivocada. Eu disse que o cara havia estado a noite inteira de plantão, no cansaço se enganara, mas que no dia seguinte eu traria a receita correta. "Não, não podemos fazer isso, este é um medicamento controlado". "Entendo, mas vocês me conhecem há mais de dez anos; se quiser, deixo todos os meus documentos com vocês até voltar". "Impossível, a farmácia poderia ser fechada por isso." "São 20:00h de um domingo, voltarei amanhã às 9:00, duvido que sejam fiscalizados nesse meio tempo." "Lamento, não posso fazer nada". Fui ficando desesperado com a estupidez da situação. "Mas meu cachorro pode morrer sem esse medicamento! O veterinário já foi embora, e não estou comprando morfina nem nada parecido, apenas um simples remédio para epilepsia que custa R$6,80!". Nada a sensibilizou. Ao ver que seria impossível, minha frustração e impotência se transformaram em raiva e lhe disse: "Espero que você nunca passe por uma situação assim, em que um ser que você ama pode vir a falecer devido à inflexibilidade do sistema". A mulher então começou a gritar coisas em nome de Jesus e a fazer o sinal da cruz (daquele jeito típico com o qual certos evangélicos exorcizam demônios), pois entendeu que eu lhe estava rogando uma praga. Tentei explicar que apenas queria que ela visse a situação pelo meu ponto de vista, mas foi inútil, a mulher estava em pânico achando que eu faria bonecos vodu de sua família. Saí de lá com todos me olhando com caras reprovadoras.  

            Enfim, talvez ela esteja certa e eu errado. Só sei que neste final de 2015 estou amargurado, cansado e enojado da humanidade (parei de ver notícias, saí das redes sociais, desinteressei-me do mundo). Neste exato momento estou bebendo, com sorte ficarei embriagado. Devo mesmo ser um demônio.  


Alberto Heller

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O passado condena nossas obras?

Durante meus anos de estudo na Alemanha fiz amizade com um casal que se conhecera há pouco, ele um compositor alemão, ela uma pianista armênia. Certo dia, ela o presenteou com um CD do norte-americano Samuel Barber (incluindo sua obra preferida, o Adagio para cordas), presente que o namorado recusou veementemente dizendo: "Não posso ouvir a música de alguém que, durante a guerra, participou como piloto da aeronáutica e soltou bombas na minha cidade, Potsdam". Discutimos longamente se a obra não poderia, mesmo assim, ser apreciada, mas ele se mostrou inamovível.

            Semana passada, numa livraria, fiquei algum tempo lendo trechos de um livro chamado Heidegger: a introdução do nazismo na filosofia, onde seu autor, o francês Emmanuel Faye, condenava implacavelmente a obra de Heidegger (TODA ela), alegando ao longo de 600 páginas que não há uma só linha em seus escritos que não esteja contaminada dessa perigosa ideologia, e que seus livros, portanto, (todos eles), deveriam ser queimados, proibidos ou, no mínimo, vendidos com advertências (do tipo: cuidado, ao ler isto você poderá transformar-se num nazista bigodudo).

            Até não muito tempo atrás, milhares de estudantes de medicina estudavam anatomia humana através de um livro (brilhante e ricamente ilustrado) publicado sob pseudônimo – escrito por um autor que, descobriu-se mais tarde, viria a ser conhecido como Jack the Ripper.  Não sabia disso? Nem eu, acabei de inventar. Mas teria sido macabramente engraçado. Talvez um dia fiquemos sabendo que Machado de Assis era pedófilo, que Guimarães Rosa era um serial killer (o "Matador do Sertão"), que Beethoven era um estelionatário...

            Como diria Riobaldo, "Viver é muito perigoso".



Alberto Heller

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Brendel, Beethoven e a maturidade artística

O pianista austríaco Alfred Brendel (1931), além de parecer uma mistura de Michael Caine com Woody Allen, foi e continua sendo uma das principais referências na interpretação do estilo Clássico, especialmente Beethoven e Schubert. Gravou a integral das Sonatas para piano de Beethoven (32 magníficas obras) pela primeira vez entre 1962 e 1965 (Vox); regravou-as nos anos 1970, (Philips), e uma terceira vez entre 1990 e 1996 (Decca). Não é pouca coisa.

Imaginamos que a cada gravação sua interpretação foi ficando mais bonita, mais refinada, mais "redonda". Não é necessariamente o caso: em muitos momentos, sua sonoridade tornou-se mais áspera, mais seca, mais dura. Não que tenha perdido a beleza, mas sua concepção passou a integrar outros tipos de sons que o compromisso inicial com uma "beleza genérica" antes deixara de fora. A questão deixou de ser "tocar o mais lindamente possível"; a maturidade artística (inseparável da maturidade pessoal) significa muitas vezes incorporar a vida em sua totalidade, o que inclui dor, sofrimento, desesperança, tédio, raiva, decepção, amargura e tantas outras coisas. Isso não a torna "feia": torna-a completa, rica, profunda.

Creio que a maior parte do público ainda prefira a primeira gravação; é mais "bonita" (assim como os paladares não preparados preferirão os vinhos mais adocicados). Eu nem chego a tentar me decidir: apenas fico grato pela oportunidade que temos na vida de mudar e de nos transformar.


Alberto Heller

domingo, 13 de dezembro de 2015

Meu amor por Schubert

Meus pais ouviam muita música clássica em casa; alguns discos eu gostava, outros suportava. Aos poucos, comecei a procurá-los por minha própria conta, até o dia em que descobri um de capa azul celeste com obras de Schubert – entre elas, o Improviso Op.90 nº3 em sol bemol maior. Eu devia ter uns nove anos, e me lembro que fiquei extasiado. Aquilo me levava a um lugar especial, a uma melancolia doce e outonal, uma saudade de algo que não conhecia ou esquecera. Depois de ouvi-lo umas vinte vezes, decidi-me: comuniquei à minha mãe meu desejo de aprender a tocar piano.

Nos primeiros dois anos de estudo o Improviso se mostrou inviável. Mas pouco depois, mesmo contrariando o bom senso e realismo da professora, resolvi que chegara a hora. Não apenas isso, como que iria tocá-lo no recital de final de ano da escola, que seria no belo auditório da Biblioteca Pública em Curitiba. A professora tentou me explicar que em apenas dois meses isso seria loucura, o que me fez gostar ainda mais do desafio. Estudava o dia inteiro (coitada da família e dos vizinhos); nota a nota, compasso a compasso, aprendi e memorizei a partitura com seus muitos bemóis.

Chegou o dia da apresentação e, finalmente, toquei a obra que me levara ao piano. Foi a glória. Mesmo o comentário negativo de minha avó (ela sempre tinha comentários negativos sobre tudo) de que eu abusara do pedal não afetou minha sensação de triunfo.

Hoje, aos 44 anos de idade, ainda tenho essa obra – e seu compositor – no coração. Toco-a somente de vez em quando, como aquelas bebidas raras e refinadas que apreciamos com intensidade mas em pequenas e distanciadas doses. E ainda hoje sinto, ao tocá-la, o mesmo outono adocicado, a mesma saudade de um outro mundo que não o nosso.


Alberto Heller

sábado, 5 de dezembro de 2015

Cumplicidade

Curitiba, 1979, eu então com oito anos de idade; meu pai resolveu levar todos nós – minha mãe, meus dois irmãos mais velhos e eu – ao cinema para ver uma sessão única às 22 horas de um filme de 1958 (Meu Tio, de Jacques Tati ) do qual ele vivia falando e que, tinha certeza, iríamos amar (na verdade, a família odiou e ficou pegando no pé dele por semanas). O cinema se chamava Cine Vitória, talvez o maior e mais elegante de sua época (inaugurado em 1963, funcionou até 1987),  com um enorme saguão no andar térreo, ricamente acarpetado.

Graças à mania de pontualidade do meu pai, chegamos quarenta minutos antes da sessão; enquanto a família conversava para passar o tempo, fui xeretar o local e acabei entrando na sala de exibição. Meus pais não se deram conta de que, durante o dia, estava em exibição um filme pornô (sim, naquela época passavam filmes pornográficos mesmo nos cinemas considerados "decentes"). Quando olhei para o telão, qual não foi minha surpresa ao ver um casal trepando na escada de uma piscina! Explicitamente!!! Fiquei ali de pé, olhos arregalados e boca aberta, mal piscava. Depois de algum tempo, ao ver que eu demorava, apareceu meu pai. Olhou para mim, olhou para a tela, para mim e novamente para a tela; deu então um sorrisinho e, para minha inenarrável alegria, voltou ao saguão sem dizer nada, deixando-me ali a ver o filme. Ah, como o amei por isso!

Sei que a história não é politicamente correta, mas a tenho com muito carinho. E não, não me tornei um degenerado por causa disso (pelo menos acho que não). Hoje, ao relembrar o ocorrido, percebo que o que ficou mais forte na memória não foi o registro sexual, mas o sorriso de cumplicidade do meu pai.



Alberto Heller