sábado, 28 de novembro de 2015

A indisfarçável alegria dos enforcamentos em praça pública

A julgar por relatos e gravuras, os enforcamentos públicos (por exemplo em 1600, 1700, 1800 – na Europa, América e outros lugares) deviam ser eventos incrivelmente festivos: famílias inteiras iam às praças, aproveitando para comer, comprar/trocar, se divertir e "fazer um social". Imagino as crianças (e não só elas) ávidas pelo espetáculo, os olhinhos brilhando em ansiosa antecipação, os comentários (indignados, raivosos, zombeteiros, compadecidos), ora sussurrados em segredo, ora berrados aos gritos. Enfim, uma festa. Considerando a falta de estádios de futebol, arenas de gladiadores e afins, uma excelente opção. A velha curiosidade humana pela morte, a felicidade de ser o outro e não nós, nossa morbidez disfarçada em senso de justiça, o fascínio pela desgraça alheia (assim como, hoje, as pessoas diminuem a velocidade de seus carros ao passar por cenas de acidentes e, chocadas/estarrecidas/maravilhadas, se horrorizam com o sangue e os corpos despedaçados).

            Mas voltemos à praça em festa: surge o carrasco (frêmitos na multidão), o padre faz suas orações (ah, a delícia de se prolongar os rituais), finalmente o corpo cai (gritos, oooohhhs, desmaios), balança por um tempo e se aquieta. Silêncio. No momento da morte, o enforcado expia nossos pecados (como o famoso bode descrito em Levítico 16). Hora de voltar à festa, de CELEBRAR – afinal, estamos (continuamos) vivos. Aleluia!

            Hoje a coisa perdeu a graça, as praças perderam o encanto, não mais nos presenteiam com essas alegres diversões. Mas quem precisa de praça quando se tem a internet? Apedrejamentos, linchamentos, torturas, forcas, guilhotinas – tudo isso e muito mais você encontra nas redes "sociais" (e aqui caberia o famoso kkkkk). Avidamente espreitamos e aguardamos pela vítima da vez. Um político corrupto? FORCA!!! Um desastre ambiental? FUZILAMENTO!!! Terroristas? Tortura lenta com direito a álcool e sal grosso nas feridas. Inventaram uma nova hashtag para falar mal dos homens? #PAU NELES!!!! Aproveite: é de graça, é divertido, é fácil, as pedras estão à sua frente, espalhadas entre as teclas de seu computador.

Alberto Heller


domingo, 22 de novembro de 2015

O Senhor das Escolhas (ou: o delírio das setlists)

Quem há duzentos anos viajava de carruagem ou mesmo de navio ouvia todo o seu percurso. Mesmo os primeiros carros a motor ainda o permitiam. Hoje, fechamos as janelas, ligamos o ar condicionado e ouvimos música. De preferência, as que selecionamos previamente – as famosas setlists. Por que aturarmos o gosto alheio se podemos acessar música por streaming (Spotify, Deezer, Apple Music etc.)? E não só no carro: no avião, nas filas, na academia, coloco meus fones de ouvido, isolo-me do mundo e dos outros (e de suas escolhas infelizes, de seu gosto "horroroso"). Agora tudo tem minha própria trilha sonora. Não escuto mais os outros, escuto apenas a mim mesmo. Grito ininterruptamente meu eu, não há mais espaço (nem interesse) para/pelo outro. Silencio o outro (que resta agora apenas como fundo ou alucinação). Satisfaço-me numa repetição infinita de mim mesmo, alienação masturbatória ad infinitum, intolerância total a tudo que seja diferente, a tudo que não me agrade. Alieno-me na vivência pessoal e me isolo de qualquer ex-periência (ex: que vem de fora). O problema das fortalezas e dos castelos: parecem seguros, mas uma vez ali encerrados, corre-se o risco de morrer por inanição. Mas tudo bem: morreremos ouvindo nossa setlist, nossa seleção pessoal para o apocalipse.

Paralelamente, a literatura de autoajuda vive nos dizendo: você tem a escolha, você decide, você é o responsável por sua felicidade ou infelicidade. Ótimo!, tudo parte de mim: o mundo é uma escolha e posso escolher o que quiser. Sou o Senhor das Escolhas! Dane-se o mundo (o cosmos, o universo, a natureza, os deuses, os outros, o acaso): tudo depende agora única e exclusivamente de minhas decisões (afinal, posso "sonhar", posso tornar-me o que quiser – é "meu direito" –, posso me inventar e reinventar quando e quanto quiser). As crianças mimadas do século XXI: não mais permitimos sermos frustrados em nossos desejos (que passaram a ser direitos e exigências); a felicidade passou a ser um direito (por isso reclamamos tanto), e o outro costuma ser um empecilho, um inconveniente entre eu e a felicidade. Não se preocupe, você não precisa mais olhar para a cara feia de seu vizinho na fila do banco: olhe para seu celular. E se tiver um fone do ouvido, perfeito: o mundo agora é seu.


Alberto Heller