terça-feira, 27 de outubro de 2015

Pornografia, erotismo e alta fidelidade

A cada ano a tecnologia nos oferece equipamentos de áudio e de vídeo mais impressionantes; já não se trata, como antigamente, de buscar a "alta fidelidade": quer-se uma hiper-fidelidade que, paradoxalmente, causa certo estranhamento: no cinema e na televisão nos dão tanta cor e definição que nada mais resta a se acrescentar ou a dar em troca. Após alguns minutos vendo imagens em tais aparelhos, o mundo de verdade parece subitamente chato (achatado), opaco, pouco intenso, pouco real.

            Como aponta Jean Baudrillard em seu livro A sedução, o que presenciamos é o “delírio técnico de restituição perfeita de uma música (Bach, Monteverdi, Mozart!) que nunca existiu, que ninguém nunca ouviu assim e que não é feita para ser ouvida assim. Aliás, ela não é “ouvida”, é outra coisa, a distância que faz com que se ouça uma música, num concerto ou em outro lugar, é abolida; já não há espaço musical, é uma simulação de ambiência total que nos despoja de qualquer percepção analítica mínima que faz o encanto da música”.

            Tal delírio técnico pode ser comparado à pornografia, que nos dá o excesso de real em seu detalhe microscópico, um voyeurismo de exatidão – alucinação do detalhe que põe fim a qualquer segredo. No pornô não temos o mistério do erotismo, não temos tramas, enredos, diálogos; não interessam os rostos (seriam inconvenientes pois restituiriam sentido e pessoalidade), nem as qualidades dramáticas dos atores. Já no erotismo, o que seduz é o que não se vê, ou melhor, a intermitência entre o que se vê e o que não se vê (a dobra do vestido, o decote, o cintilar da pele entre duas peças de roupa: vê-se apenas uma parte, imagina-se o resto, fantasia-se). No pornô, vê-se tudo, demais (quase beirando o grotesco), numa forma tal como provavelmente nunca veríamos durante uma relação sexual. Eis a ilusão do pornô: não é por mostrar mais que ele nos dá mais.

            Talvez não seja o caso de nos presentearmos neste próximo Natal com um novo e espetacular Home Theater de US$10.000,00; talvez seja o caso de nos desejarmos, como dizia John Cage, "happy new ears".  



Alberto Heller

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O ruído, a maquiagem e a beleza


Num estúdio de gravação se isola, tanto quanto possível, os ruídos externos. Mesmo assim, sobram muitos: uma respiração mais acentuada, um roçar no microfone, uma batida do arco na madeira do violino, uma mão que esbarra na tampa do piano. Para esses e tantos outros ruídos indesejados, temos os mais variados softwares que filtram e limpam qualquer sujeira. O resultado final é higiênico, asséptico – profundo e sensual como um banheiro de hospital ou uma foto mil vezes retocada no Photoshop.

Todos os dias nos olhamos no espelho e este nos devolve imagens estranhas: rugas que antes não estavam lá, olheiras que insistem em se intensificar, imperfeições várias que teimam em se multiplicar. Pensamos: isso nos tornará mais feios, por conseguinte seremos menos amados, menos desejados. Bobagem. Não nos apaixonamos porque alguém tem a pele linda, ou cabelos lindos ou seios lindos. Se assim fosse, estaríamos apaixonados por um detalhe e não pela pessoa. E o Photoshop nos rouba a imagem desse ser por quem nos apaixonamos, transformando-o em algo outro, irreconhecível; em prol de ideais genéricos, o que era único foi apagado: ao invés do nosso ser amado, agora nos deparamos com apenas um belo ser, mais um entre milhões de outros.

Sabe aquela nota "pura e afinada"? É uma ilusão acústica; junto a ela soam várias outras notas, consoantes e dissonantes (um espectro sonoro denominado série harmônica), resultando em ondas sonoras altamente complexas e multiformes. É a beleza do som: sua assimetria; sua imperfeição. Sua insondabilidade (céus, sempre quis usar essa palavra!). A beleza que, sempre única, pode ser amada. E por que uma nota, podendo ser amada, preferiria ser admirada?


Alberto Heller

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Um exemplo de ética

Dizem que aprendemos mais com exemplos que com meras palavras. Em relação à questão ética, um dos exemplos que vivenciei e que tem me voltado com frequência à memória se deu com meu professor de piano em Weimar, na Alemanha: Peter Waas. Era (é) um homem que, antes de falar, sempre ponderava muito – o que não era para menos: fazia pouco tempo da reunificação das duas Alemanhas, e ele vivera toda a sua vida na então DDR e na Rússia; uma palavra em falso e o Stasi (a temida polícia secreta) já estaria à sua porta convidando para um nada agradável "bate-papo". Mas voltando ao exemplo: a cena que me vem à lembrança se deu por ocasião do concerto de um pianista norte-americano, que incluiu em seu repertório uma obra de Bach a qual também eu na época estava estudando. Para meu deleite e orgulho juvenis, a interpretação dele apresentou vários problemas (o que, na minha cabecinha oca, fazia da minha interpretação algo aparentemente superior). Finda a apresentação, pedi ao professor Waas sua opinião sobre o evento, já me deleitando antecipadamente com as críticas duríssimas que ele certamente faria (nunca, em toda a minha vida, encontrei alguém mais perfeccionista – doentiamente perfeccionista – que esse cara). Ele pensou, pensou, pensou (mais de trinta segundos), e finalmente disse: "Receio discordar da linha de interpretação adotada pelo Sr. X" (designando-o muito respeitosamente pelo sobrenome), e passou a mencionar detalhes técnicos sobre os quais discordava (andamento, articulação, fraseado etc.), em momento algum fazendo qualquer observação zombeteira ou desdenhosa. Falou como se o sujeito estivesse à nossa frente e ainda por cima acompanhado por uma junta de especialistas. Nem por um segundo o desrespeitou, não falou em tom leviano, não fez fofoca. Senti naquele momento minha face ruborizando, dando-me conta da minha pequenez de espírito. Aquilo foi um tapa que dói até hoje. Quando me flagro fazendo comentários maldosos e/ou impensados, lembro-me do Herr Waas (infelizmente, quando já é tarde...).

Alberto Heller

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Estudando (ou não) os grandes compositores

Mozart era risonho, uma eterna criança; Beethoven era carrancudo, sempre mal-humorado; Schubert, tímido, apesar de festeiro; Händel, exaltado, sangüíneo; Chopin, sempre sofrendo, coitado; Schumann, louco; Liszt, mulherengo; Mussorgsky bebia (homossexualidade não assumida); Wagner, apesar de genial, era antissemita e megalomaníaco; já Brahms era sério, muito sério; Villa-Lobos, um mentiroso (como ao espalhar na França ter escapado por pouco de ferozes canibais na Amazônia); Schönberg, radical e inflexível.

Uma vez munido dessas “valiosas” informações “biográficas”, o intérprete se lança ao trabalho: toca Mozart como quem ri, toca Chopin como quem morre, sucumbindo assim aos piores clichês. Sem dúvida é útil saber que Beethoven era alemão e não australiano – mas até que ponto o conhecimento biográfico nos dá maior ou menor autoridade em relação à interpretação musical? Supõe-se que o estudo das biografias nos daria acesso à "tradição". Mas, dizia Husserl, a tradição é (também) o esquecimento das origens.

Concordo com este trecho escrito por Marilena Chauí (Experiência do pensamento, 2002, p.191) a respeito de Merleau-Ponty: "Nem sempre o museu e a biblioteca são benfazejos. Por um lado, criam a impressão de que as obras estão acabadas, existindo apenas para serem contempladas, e que a unidade histórica das artes e a do pensamento se fazem por acumulação e reunião de obras; por outro, substituem a história como advento pela hipocrisia da história pomposa, oficial e celebrativa, que é esquecimento e perda da forma nobre da memória. Seria preciso ir ao museu e à biblioteca como ali vão os artistas, os escritores e os pensadores: na alegria e na dor de uma tarefa interminável em que cada começo é promessa de recomeço". 

O mesmo estudo que (pensamos) deveria nos aproximar da obra e mesmo de seu autor torna-se, muitas vezes, obstáculo; lê-se sobre a grandeza, mas em momento algum se vivencia tal grandeza. Falo daquele estudo burocrático, chato, medíocre, do qual nossas escolas e universidades estão cheias. 

Lembremo-nos das origens. Vivamos as origens.

Alberto Heller