domingo, 27 de setembro de 2015

Sobre tocar no Rock in Rio

                Dois dias atrás toquei com o guitarrista Steve Vai e a orquestra Camerata Florianópolis no Rock in Rio. Difícil descrever a sensação de estar num palco como aquele, tocando em frente a cem mil pessoas; é uma experiência única. Assim como tocar na frente de uma pessoa ou mesmo sozinho. Explico-me.

            Faço essa observação devido a uma pergunta que me foi feita durante uma entrevista: "Tocar com Steve Vai nesse festival é algo transformador em sua trajetória artística"? Sim, claro! Da mesma forma que todas as parcerias pelas quais passei em minha vida foram e são transformadoras, respondi. Todas, sem exceção. Mesmo as ruins (principalmente as ruins) deixaram suas marcas. A pergunta do repórter se insere no universo imaginário que faz das celebridades o ápice do desejo e da realização pessoal. É mais ou menos como achar que transar com a Angelina Jolie será uma experiência infinitamente superior a transar com qualquer outra mulher. Fora o duvidoso prazer de poder gabar-se disso junto aos amigos ("Cara, você não vai acreditar com quem saí ontem à noite!"), nada garante que a experiência com a beldade-celebridade será mais especial ou prazerosa.

            Não me entendam mal, não estou me desfazendo de minha experiência no Rock in Rio – ela foi maravilhosa! O que me incomoda é que se subestime e desvalorize nossas experiências diárias; que ao qualificá-las de "pequenas" e corriqueiras, se lhes negue qualquer possibilidade de valor (que é quando as pessoas começam a duvidar de suas escolhas e passam a viver frustradas porque não chegaram aonde as revistas de celebridades dizem que pessoas "de sucesso" deveriam chegar). Nossa cultura insiste em confundir grandeza com grandiosidade. Pode haver grandeza (ou não) num momento artístico envolvendo dez pessoas, enquanto um evento grandioso como o Rock in Rio pode (ou não) passar-lhe ao largo. 

            No dia-a-dia vivemos coisas extraordinárias. Sem holofotes. Sem repórteres. Sem curtidas no Facebook. Como lamenta em seu monólogo final o androide do filme Blade Runner, "todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva". Sim: se perderão. É essa a grandeza do efêmero.

Alberto Heller


domingo, 13 de setembro de 2015

A educação última do olhar

Viajamos – mas o projeto da viagem é sempre surpreendido por seu trajeto (nenhum poder de previsão antecipa as inúmeras viagens dentro da viagem). Viaja-se a Roma para ver o Coliseu e eis que a grande viagem acontece no momento fugaz em que nosso olhar se cruza com o de um menino segurando um balão vermelho; nessa troca de olhares abre-se o tempo, abre-se o espaço: somos transportados a um outro mundo, um mundo paralelo, um mundo que se nos mostra ao mesmo tempo em que se nos oculta e que se desfaz tão rapidamente quanto se cria (mais tarde, ao relembrar a viagem, descobrimos que o ponto alto não foi o Coliseu, mas justamente aquela troca de olhares).

Viajamos para ver, mas somos tomados pelo invisível. Eis o convite à viagem: o que se oculta, o que se nega, o que se nos escapa (será o poético a visão da invisibilidade?). Penso poder devorar com o olhar, mas sou devorado pela visão. Quantas vezes olhamos sem ver, ouvimos sem escutar, chegamos aos lugares mas não os atravessamos; nem toda viagem é travessia, nem todo momento transborda.

Viajantes são comumente conduzidos aos pontos turísticos para que possam ver aquilo que, em alemão, se chama sehenswürdig (digno-de-se-ver). Mas o que faz com que algo se transforme em uma Sehenswürdigkeit? O que faz com que algo seja ou se torne digno de nossa admiração? Ou, vendo a questão por outro ângulo: por que às vezes nossa atenção se prende ao que normalmente mal seria digno de nota?  Aqui o viajante se flagra estranhamente entediado ante um monumento famoso e subitamente extasiado ante uma pequena flor crescendo numa rocha.

A arte de ver artisticamente: a educação última do olhar.

Alberto Heller