quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A memória solapada

Qual a melhor maneira de esconder ou perder algo? No excesso. Na bagunça das pilhas que se amontoam.

            Chamaram nossa era de 'era da informação'. Está tudo aí, disponível, basta acessar. Por isso não mais memorizamos, não mais decoramos (do latim cor: coração). Na avalanche diária de informações (importantes, bonitas, poéticas, profundas, divertidas, bacanas etc.), algumas vamos salvando (nos mil Pen Drives e HDs externos), outras perdendo (ou seja: não mais guardamos no coração). Mas mesmo as que eventualmente salvamos... onde estavam mesmo? Em qual pasta? E quando lembrarei que ali havia algo importante? Esquecemos de ter de nos lembrar.

            Consumimos. Incessantemente, consumimos informações, novidades, escândalos (as "notícias"), urgências. Postamos e lemos diariamente coisas nas redes sociais que, no máximo em 48 horas, serão esquecidas. Na maioria dos casos, isso é ótimo. Mas e quanto às coisas que realmente podem fazer uma diferença em nossa existência? Salvamos "para depois". Um depois no qual absolutamente não nos lembraremos que salvamos algo (e, mesmo que cheguemos a nos lembrar, talvez não consigamos localizá-lo em meio ao oceano de arquivos perdidos).


Alberto Heller

domingo, 16 de agosto de 2015

O asseio e o destino


         Escreve Fernando Pessoa em seu Livro do Desassossego (nº42): "Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa – não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio".

            Asseio: limpeza, higiene – aquilo que fazemos para nos livrar da sujeira. A sujeira que, inevitavelmente, se acumula. No corpo e na vida. E à qual nos habituamos (incrível quão facilmente nos habituamos!). Sujeiras que passam a fazer parte do nosso rosto e da nossa biografia, máscaras que, por um motivo ou outro, precisamos usar e que agora se confundem com a própria face. Chega então o dia em que você se olha numa foto e sente o desconforto: aquele não é você. Quando deixei de ser eu? Quando me perdi? Quando passei a representar papéis?

            Fernando Pessoa, novamente (ibidem, nº39): "Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou. (...) Nem sequer representei: representaram-me". A sociedade, os valores, a cultura, a educação. Tantos deuses a agradar... tantos diplomas a honrar... tanto "tempo investido" com o qual eu deveria, agora, lucrar...

            Os "deveria"... Sujeira que resiste às melhores faxinas. Até porque crescemos pensando que era algo digno, belo, limpo (FP, ibidem nº21: "Haja ou não deuses, deles somos servos"). Servimos, tornamo-nos servis; escravos de projetos que sequer são nossos.  Acordamos então um dia e percebemos que a história ("nossa" história) se tornou pesada, se tornou um fardo. Viramos Sísifos (os deuses condenaram Sísifo a empurrar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso; pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança).

            É o momento do asseio. Sabe aquela sensação gostosa depois de um bom banho? Pois é: a leveza. A bela e sagrada leveza.

Alberto Heller

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Partido A ou B? (ou: do optar e do criar)

É uma pena quando os elementos de um debate (seja ele político, filosófico, religioso ou outro) são reduzidos às possibilidades A e B. Uma pena porque, ao reduzir as infinitas realidades a A e B, reduzimo-nos também nós: ou somos A (e pertencemos a A), ou somos B (e pertencemos a B) – sendo que ambas as pertinências se tornam, nessa lógica binária, mutuamente excludentes (ao identificar-se a A você automaticamente se opõe a B e vice-versa). Reduzimos assim a existência a opostos ideais: branco e negro, bem e mal, masculino e feminino, direita e esquerda. Passamos a ser representantes do que não somos, ou melhor: passamos a ser representados por algo que não reflete nem de perto nosso todo. 

Pense na seguinte afirmação: "Há dois Brasis: o dos que gostam do saci-pererê, e o dos que não gostam"; se você parar para pensar em qual resposta se enquadra, pronto: já  foi tragado por essa lógica, já foi 'enquadrado' num dos 'grupos'. Capturados pela pergunta, ficamos condenados a responder de acordo com opções já dadas (e optar é algo bem diferente de ser livre). Quanto à resposta, é irrelevante. A única resposta relevante nesse caso seria uma que questionasse a própria pergunta e o próprio perguntar.

            Mas somos educados (ou adestrados?) e acabamos respondendo (o orgulho escolar de responder corretamente às enquetes). Desse modo, somos capturados, cooptados, induzidos a responder à lógica binária, abdicando sistematicamente à liberdade nobre e criadora – a liberdade que não é optar por A ou B, mas construir para além de A e B.

            Por que caímos nessa? Simples: porque é mais fácil. Ante a opção, nos isentamos da responsabilidade (latim: responsa + habilidade: habilidade de resposta) de ter que criar (isso dá um trabalho danado). Optar não é responder (e é tão mais fácil ser irresponsável). 

            Vivemos a democracia como se estivéssemos num daqueles programas de auditório em que se dá prêmios aos que acertam as respostas. Mas só quem ganha é o dono da emissora. Aos "participantes", apenas as migalhas. E os aplausos do auditório (mas apenas na hora certa, que é quando aparece o aviso luminoso de 'bater palmas'). 

Alberto Heller

domingo, 2 de agosto de 2015

Projeto & Trajeto

        A sociedade nos quer úteis, produtivos. Por isso estudamos muito, por isso nos esforçamos tanto. Afinal (dizem), precisamos ser tecnicamente capazes, competitivos: conciliar eficiência e desempenho, rapidez e qualidade, perícia e destreza. Somos então avaliados de acordo com esses parâmetros, segundo os quais somos "bons" ou "ruins". Dizemos: fulano é bom, "chegou lá". Lá onde? Que lugar é esse?

    Criou-se a ilusão de um caminho a ser percorrido, de metas a serem cumpridas, alcançadas. Consumidos pela ideia de um projeto, transformamos nossa própria existência em projeto. Esquecemos da beleza do caminhar, movimento esse no qual não andamos “para chegar a um lugar”: porque andamos, cria-se espaço, há lugar. Esse é o tempo do trajeto, do passeio, da caminhada, onde se tem espera ao invés de expectativa (na expectativa o tempo é outro: quando chegar "lá", serei aquele que, agora, não posso ser nunca).

            O problema não é termos projetos; o problema é ver em toda ação a obrigação do útil, do produtivo. A ação torna-se, então, causal: tomamos o agir apenas como o produzir de um efeito – ação como performance (que é quando, ao praticar jogging, por exemplo, não corro, faço meu corpo correr). Confundimos ação com operação, fazer com afazer. Tornamo-nos pessoas atarefadas: tudo virou obrigação, coisa a ser feita. A vida perdeu a graça, perdeu a brincadeira, a diversão, o tesão. Perdeu sua gratuidade. E com isso o tempo ficou curto, ocupado pela agenda.

            No caminho mais curto (o do projeto em linha reta, calculado com precisão, o do "meio eficaz e rápido para alcançar o objetivo") conseguimos a proeza de nos perder. Quem disse que a vida é para ser em linha reta?

Alberto Heller