domingo, 26 de julho de 2015

A experiência artística no setting terapêutico

Quando pensamos nas possíveis relações entre música e terapia (ou, de um modo mais geral, entre terapia e arte), imediatamente nos vêm à lembrança como possibilidade mais lógica de união entre dois campos o modelo da musicoterapia. Mas é possível encontrarmos o musical sem necessariamente "fazermos" música, e podemos, assim, encontrá-lo mesmo numa relação terapêutica tradicional (se é que isso existe). Sugiro a seguinte situação:

O sujeito (paciente, consulente ou o termo que se queira dar) encontra-se à minha frente (eu enquanto terapeuta): seus movimentos – pés, mãos, rosto, tronco – formam uma dança, e mesmo as interrupções que vão ocorrendo fazem parte dessa dança. Não uma dança em sentido tradicional, claro, mas ainda assim, uma dança. De repente, ele suspira e olha pela janela – descortina-se à minha frente um quadro, belíssimo e profundo. Ouço aquele momento de silêncio, atravessado por uma leve brisa que balança a cortina e pelo canto ocasional de pássaros, e desse fundo irrompe a voz do sujeito, conectando com a frase melódica do suspiro – pura música. Sons e pausas dialogam, livres. Há também cheiros, que perpassam minhas narinas e meus lábios, condensam-se sobre minha língua e se transformam em gosto; saboreio e absorvo seu perfume. Estou ali, com todos os meus sentidos, fazendo parte da dança, do quadro, da música, da cena.

Sentidos que se entrelaçam, reversíveis: tateio com os olhos, ouço com o corpo, vejo com os ouvidos. Não se trata de metáfora nem de linguagem poética, mas de uma experiência muito própria (apropriadora, apropriante): algo que em nós se cria. Mas como falar em criação se isso que em mim se apropria surge quase como uma passividade? É difícil pensar-se em criação sem cair em armadilhas semânticas, lógicas discursivas nas quais quem cria, cria alguma coisa – e a partir de onde se infere a existência de um sujeito que faz alguma coisa (sujeito, verbo, predicado, objeto, causalidade, passado, futuro, linha temporal etc.). Na experiência acima descrita diluem-se os sujeitos, diluem-se os espaços e as temporalidades. Mais que uma vivência estética, é uma experiência ética.

Tal dimensão artística é muitas vezes perdida ou negligenciada quando inserido o conceito (congelante) de “Arte”; o artista não lida com arte, lida com o vazio, e neste campo não há segurança alguma: a cada processo/obra, um novo vazio, uma nova angústia se instaura. Ele (o artista) não aprende a dar forma aos vazios, nem sua atividade visa preenchê-los; no máximo, aprende a conviver e a deleitar-se com eles.
Alberto Heller

sábado, 25 de julho de 2015

A leste do oeste

           Em algum ponto de nossas vidas as coisas perdem o sentido. E isso não é de todo mau. Na verdade, trata-se de uma excelente oportunidade para reavaliar nosso percurso e as confusões nas quais nos metemos. Eu, por exemplo, não sei bem como fui virar músico, já que meu sonho de infância era tornar-me escritor. Não me entendam mal: não estou arrependido; apenas não sei mais ao certo o que quero da música, o que devo (e posso) esperar dela. Enfim, faço música – logo, por analogia, sou músico. Identifiquei-me por longos anos com esse nome; hoje, entretanto, ele me causa estranheza. Vêm-me à lembrança as ‘Memórias de um amnésico’ de Erik Satie: “todo mundo lhes dirá que não sou músico. Estão certos. Também John Cage, em ‘De segunda a um ano’: O que foi que, realmente, me fez escolher a música em lugar da pintura? Só porque as pessoas disseram coisas mais bonitas sobre minha música do que sobre minhas pinturas? Mas eu não tenho ouvido absoluto. Não consigo sustentar uma nota. De fato, eu não tenho talento para a música. Da última vez que a vi, Tia Phoebe disse ‘você está na profissão errada’”.  

            Às vezes se vai tanto a oeste que se chega a leste; às vezes se mergulha tanto em algo que esse algo se transforma a ponto de não mais o vermos do jeito como os outros o vêem (e nos vêem). No contato com a coisa, dissolve-se a imagem da coisa – e como as primeiras aproximações costumam ocorrer a partir da imagem, sua súbita ausência nos desconcerta. Como naquele conto chinês em que um pescador passa anos atrás de certa baleia, até o dia em que não mais a vê: pensa-a morta e fica desolado, sem saber que não consegue vê-la porque seu barco está sobre ela.

            Como disse há pouco, chega um momento em nossas vidas em que as coisas perdem o sentido. Não me refiro a estarmos perdidos, sabemos perfeitamente onde estamos. Mas, ao perceber atentamente (muito atentamente) o mundo à nossa volta, identificamos um halo de loucura e de irrealidade: de repente o óbvio deixa de ser óbvio e se transforma num mistério. Antes um acorde de lá menor era simplesmente um acorde de lá menor. Agora já não sei – as notas são as de um acorde de lá menor, mas ouço ali mil relações ocultas (celestiais e infernais, possíveis e impossíveis). Sinto-me como o astrônomo que um dia olha para o céu e, ao invés de detectar suas velhas e bem conhecidas constelações, sente-se interpelado por figuras enigmáticas: ele não mais é o olho que vê, agora é ele quem está sendo observado pelos astros (e será de bom tom não interferir em tão delicado momento).

Por muito tempo pensávamos saber do que falávamos (éramos cheios de certezas, dávamos aulas sobre o assunto, publicávamos teses e tratados); hoje ainda fazemos isso, mas mais por necessidade financeira e hábito que por outra coisa. Basta o silêncio de uma folha em branco para que a brancura transborde e nos inunde. E a palavra que finalmente ali escrevemos não “diz algo”: ela abre – excesso, transbordamento.

Educamos filhos e alunos para que se tornem boas pessoas e bons profissionais (também nós fomos assim educados, e diligentemente chegamos “lá”). Mas nunca os preparamos para a consciência (a saber: a consciência de que tudo isto é uma grande loucura). Por sorte a vida é corrida, as contas são muitas, o tempo é escasso e o controle remoto da televisão está sempre à mão; estuda-se muito para passar na escola e no vestibular, para fazer faculdade, mestrado, doutorado, para ter um bom emprego, para ganhar dinheiro, para ser “o melhor” (afinal, a concorrência é grande e a superpopulação uma ameaça). Sonhos. Engraçado: dizemos “sonho me tornar isso e aquilo”, mas o que sonhamos ao dormir não é nada disso. Sonhamos loucuras, sonhamos disparates. A vida, como os sonhos, não cabe nos projetos. Em algum ponto do sentido nossas coisas perdem a vida.

            Toco piano e o piano me toca; há música, a música toca a mim e aos outros (fazer música é ser tocado à distância). Não “faço” a música, ela é que se faz em mim e por mim, excesso que não domino (se a busco é muito mais para contatar o não-eu que o eu). Lido com sons – sou músico? Escrevo estas linhas – sou escritor? Vivo minha vida – sou... o quê? Somos preparados para ser algo, não para ser. Meu permitir-me não saber o que sou é um dar-me a chance de saber o que não sou. Não sou um projeto, e para além do projeto sou uma incógnita. Saboreio, então, o vazio – e eis que ouço, ao longe, algo como uma melodia. Passou. Mas, por um brevíssimo momento, esteve ali. Presente.

Alberto Heller

texto publicado no Suplemento Cultural de Santa Catarina [Ô Catarina] nº76, primeiro trimestre de 2013