sábado, 21 de abril de 2018

Judeu ou nazista?

Durante os vários anos em que vivi na Alemanha (fazendo a faculdade de música), frequentemente as pessoas perguntavam do meu sobrenome alemão, e eu explicava que era neto de alemães que migraram para a Argentina. Invariavelmente me faziam então uma nova pergunta: antes ou depois da guerra? Levei certo tempo para entender a pergunta oculta na pergunta: queriam saber se meus avós foram judeus (que precisaram fugir antes e durante a guerra) ou nazistas (que precisaram fugir após a guerra – e quis o destino que ambos se tornassem vizinhos em terras estranhas). 

Em certa ocasião, ainda na Alemanha, fui contratado para dar um concerto num evento fechado; ao chegar no local, vi que se tratava de um grupo de senhores de idade (coisa rara por lá, onde se vê muitas idosas e poucos idosos – grande parte dos homens morreu durante a guerra). Perguntei a alguém de que se tratava a reunião, e a pessoa me confidenciou bem baixinho que eram ex-oficiais e ex-combatentes. Engoli em seco e me esforcei por ser profissional: sentei-me ao piano e toquei Mozart, Chopin e Liszt. Ao término, um dos senhores se aproximou para cumprimentar-me: perguntou do meu sobrenome e, claro, se meus avós saíram da Alemanha antes ou depois da guerra; menti dizendo: depois. Ele sorriu satisfeito, me deu um tapinha amistoso nas costas e me presenteou com um vinho bem caro. 

É o problema que surge quando se faz uma pergunta pressupondo apenas duas opções, limitadoras e excludentes: judeu ou nazista. Mais ou menos como nos dias de hoje no “debate político” brasileiro – que nem é debate e nem é político –, em que você logo é enquadrado como petralha ou como coxinha. 

Mas vejam o caso da minha avó paterna: era de Köln, e durante suas férias na Espanha conheceu e se apaixonou pelo meu avô (cujo pai estava trabalhando na embaixada argentina em Madri). Retornando à sua cidade, comunicou à família que queria se casar com ele e ir viver na Argentina. Os pais obviamente disseram que aquilo era ridículo e a proibiram terminantemente de cometer tal loucura. Dias depois ela fugiu durante a madrugada, foi até o porto mais próximo e embarcou num navio rumo a Buenos Aires. 

Já minha avó materna foi uma judia alemã (de Fulda) que fugiu para Paris; quando os alemães chegaram à França, ela precisou fugir novamente. Após certo tempo na Argentina, conheceu um polonês judeu (cujo irmão, Pavel Finder, fora o líder do partido comunista da Polônia – e sumariamente fuzilado pela Gestapo): se apaixonaram e se casaram. 

Entre o amor e a morte há muitas opções. Resta-nos fazer as perguntas certas. 

Alberto Heller

quarta-feira, 7 de março de 2018

Que fazer com tudo isso que não vemos?

Troquei recentemente de carro; no painel do novo aparece um monte de informações que no outro não havia – e eis que de um dia para o outro passei a prestar atenção em detalhes com os quais eu antes nem me importava – como, por exemplo, consumo: antes, quando o ponteiro do combustível chegava na reserva, eu parava num posto para abastecer. Simples assim. Agora há um marcador que me diz o tempo todo quantos quilômetros o carro está fazendo por litro, e me pego olhando para ele com frequência cada vez maior, analisando as pioras e melhoras no consumo, avaliando as razões e os porquês das diferenças.  

Em suma: o que está em nosso campo perceptivo captura e monopoliza nossa atenção. Ou, como diz Hannibal Lecter em O silêncio dos Inocentes, “Começamos por cobiçar aquilo que vemos todos os dias”. Mas como cobiçar o que nos escapa?

Fico pensando no que não vejo, no que deixo de ver, no que está além ou aquém do meu campo de visão e de audição; nas coisas importantes com as quais deixei de me preocupar ou que simplesmente esqueci que existiam.

Ontem, enquanto dirigia, quase cheguei a me lembrar de um sentimento vago e antigo, bonito... mas olhei para o painel do carro e constatei que o consumo piorara em relação ao dia anterior. Com o preço da gasolina, isso é realmente preocupante.


Alberto Heller

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Poeminha da vida-mosca

A liberdade sempre próxima
e mesmo assim sempre distante:
a mosca ignora que a janela esteja aberta
e insiste em debater-se furiosamente contra o vidro;
sonha com o jardim que entrevê
e com a possibilidade de novos horizontes,
mas permanece presa, acorrentada
à superfície plana e translúcida.

Caminha em círculos,
agoniada, sufocada,
– sendo que a saída encontra-se
a poucos centímetros de distância;
bastaria apenas uma mudança de itinerário
ou de perspectiva.

Olho para ela e penso:
por que é tão estúpida? Até asas ela tem!
Voa, mosca... voa, mosca....
Mas não: ela está como que imantada ao quadrado de vidro
onde sequer se nutre:
queima ao calor do sol,
gela ao frio da noite.
Talvez pense estar ao menos segura
– mal sabe que uma aranha já se aproxima.
E a janela aberta... sempre aberta...

Em sua natureza-mosca,
esquece possuir asas de anjo
e liberdade de deuses.

A janela, mesmo aberta,
é seu limite.

Intransponível.


Alberto Heller

sábado, 25 de novembro de 2017

Do preconceito descabido em relação à nobre arte da Pirataria

A beleza em se estudar documentos antigos é que ficamos sabendo de fatos incríveis praticamente esquecidos nos livros de história. Deparei-me recentemente com o julgamento do inglês Henry Morgan (1635-1688), ocorrido em Londres no ano 1679 de Nosso Senhor Jesus Cristo; ele fora acusado de pirataria: segundo seus detratores, teria sido responsável por saquear mais de duzentos navios, além de ter matado, torturado, roubado e cometido sabe-se lá quantos outros crimes. Perante o Rei Charles II e sua corte, Henry Morgan assim se pronunciou em sua célebre defesa:

Sou um homem de bem, temente a Deus e ao meu Rei; de profissão, sou marinheiro mercante. Acaso tenho culpa se, durante certas negociações comerciais, precisei defender-me, fazendo uso até mesmo da espada? Não se tratou de pirataria, mas de corajosa defesa da honra – muitas vezes até da honra de Vossa Majestade, vítima de línguas ferinas e mentes degradadas. Dizem-me corsário; mas deve um homem permitir ser ultrajado quanto tudo que fez foi colocar em uso suas habilidades e a força que lhe foi presenteada pelo Senhor nosso Deus? Se Ele me deu esse talento, em pecado estaria ao não fazer dele uso. E bom uso, ouso acrescentar, pois que ao assim proceder impus respeito perante nossa língua e nossos costumes. Embaixador fui, abrindo novos campos de trabalho, criando novas opções de mercado e angariando fundos para nobres causas (fundos que só ainda não repassei à Coroa porque estava longe, trabalhando exaustivamente). Veem? Meu pecado não passa de excesso de trabalho e de zelo. Se torturei e matei, foi por uma boa causa; e se tomei, foi porque disponível estava. Querem chamar a isso de pilhagem, mas são calúnias: apenas agi com firmeza e coragem. Tenho visão empresarial, senhores; o mundo pertence aos corações arrojados e sem medo – valores que, tenho certeza, Vossa Majestade compartilha. Deve um pai de família ser punido quando tudo que fez foi prover para os seus? A história não é escrita por mãos fracas, a glória não se obtém sem certos riscos: é preciso ousar, cavalheiros. Dividamos a fortuna e a fama, proponho eu, em nome do reino e de nossas famílias.”

Extremamente comovido com essas palavras, o Rei Charles II imediatamente inocentou Morgan, e não apenas isso: outorgou-lhe o título de ‘Sir’ e lhe confiou uma armada de vinte navios para que pudesse continuar com suas nobres atividades, agora sob os auspício da coroa. Quanto aos vis acusadores, estes foram sentenciados à masmorra e nunca mais se ouviu falar deles.

Sir Henry Morgan continuou singrando os sete mares e saqueando – perdão: negociando com firmeza e coragem – até o dia de sua morte, que ocorreu por razões naturais e no conforto de sua ilha (sim, comprou uma ilha próxima à atual Jamaica), cercado de luxo e de belas mulheres. Viva a pirataria! (perdão: viva o senso comercial aliado ao espírito empreendedor).

Fiquem tranquilos, isso tudo aconteceu há mais de trezentos anos; hoje ninguém mais assim procede.


Alberto Heller

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A definição da música

Certa vez, durante uma entrevista, perguntaram ao compositor italiano Luciano Berio o que ele entendia por música: “Sinto-me tentado a responder que a música é a arte dos sons”, disse ele, “mas correria o risco de perguntarem o que é arte e então seria pior. Receio que me seja impossível responder; é uma pergunta difícil e, afinal de contas, meio indiscreta.”

Indiscreta e indelicada. Me faz lembrar das vezes em que me pediram para explicar uma piada, ou dos repórteres que perguntam a pessoas em situações trágicas o que elas estão sentindo, ou mesmo pérolas como “foi bom pra você”? Certas perguntas não se fazem.

Talvez Berio devesse ter usado uma das Respostas para eventuais Perguntas que John Cage tinha sempre na manga para ocasiões similares: “Trata-se de uma ótima pergunta, não irei estragá-la com uma resposta.”

Perguntas aparentemente inocentes que escondem grande violência (ou, no mínimo, ignorância). O que é música? Sei lá o que é música. Mas você é músico, deveria saber! Não sei: vivo do mistério.

Se insistirem, chamarei Agostinho em meu auxílio, apenas trocando tempo por música: “O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se quiser explicá-lo a quem me fizer a pergunta, já não sei.” Ou Wittgenstein: a solução do enigma é que não há enigma.

Ou há?


Alberto Heller

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A cruz, o peso e a neurose

Creio que o ano era 1991 ou 1992; estava viajando de ônibus de Curitiba a Blumenau para dar um curso. Torcendo, como sempre, para que ninguém se sentasse ao meu lado – e como sempre alguém apareceu e se sentou. Era um homem de meia idade, aparentemente estrangeiro, provavelmente hindu. Algum tempo depois começamos a conversar: realmente era da Índia, estava passando uns anos no Brasil e falava bastante bem o nosso idioma. Papo vai papo vem, começamos a discutir (claro) religião. Não recordo como chegamos ao tema, mas achei muito rica sua concepção a respeito da simbologia da cruz: para ele, a linha horizontal representava a vontade dos homens, enquanto a vertical representava a vontade de Deus; quando essas vontades não estão alinhadas, forma-se a cruz: um peso a ser carregado, fonte de sofrimentos e martírios. Mas quando as duas se alinham, a cruz desaparece: tornamo-nos leves, tudo passa a fluir.

Anos mais tarde ouvi de um amigo que passara muitos anos num mosteiro na França a frase que seu superior lhe disse quando em dado momento teve dúvidas quanto a prosseguir ou não na carreira eclesiástica: “A tensão é o não-acordo com a realidade”.

A realidade: a do mundo, a do corpo, a da mente, da cultura, da sociedade... Tantas realidades – e com isso, tantos conflitos. O caráter neurótico do mundo moderno (ou não tão moderno assim). Basicamente, o neurótico está em conflito consigo mesmo, conflito entre o que é e o que quer ser (ou acha que quer ou é levado a crer que quer); quem ele é e quem ele “deveria” se tornar. Para nossa cruz pessoal nem precisamos atribuir vontades a Deus ou ao universo: nossa própria vontade está em constante desalinho, em constante luta. Culpa, negação, defesa, medo. Coisas que pesam. Vamos nos tornando pesados, a vida vai se transformando num calvário: estamos em desacordo. Acorde.


Alberto Heller